Investigadores do MUHNAC e da California Academy of Sciences (EUA) descobrem nova espécie de lagarto

No âmbito de projectos de investigação sobre a biodiversidade das ilhas do Golfo da Guiné que tem sido levados a cabo por investigadores do MUHNAC e da California Academy of Sciences (EUA), foi recentemente descoberta uma nova espécie de lagarto para a ciência.

Fotografia de Ross Wanless

A descrição desta nova espécie foi recentemente publicada na revista científica internacional Zootaxa pelo curador das coleções herpetológicas do MUHNAC e bolseiro pós-doc da California Academy of Sciences, Luis Ceríaco.

A nova espécie, apelidada de Trachylepis adamastor, é uma espécie de lagarto dos grupo dos Scincídeos, uma das famílias com maior diversidade de espécies de todos os vertebrados de terrestres. A espécie habita exclusivamente o Ilhéu Tinhosa Grande, ilhéu com cerca de 1 km2 de área, a cerca de 20 km a sul da Ilha do Príncipe. Devido à sua área de distribuição diminuta e ao seu grande isolamento geográfico, a espécie pode figurar entre uma das espécies de vertebrados mais ameaçados do planeta. O facto de se conhecer ainda muito pouco relativamente à sua biologia e ecologia agrava o facto e impede para já quaisquer planos de conservação realistas. No seguimento da descrição, foi submetido um projecto internacional de modo a que se possam realizar novos trabalhos de campo no ilhéu  e se possa estudar com maior detalhe a espécie e contribuir para a sua conservação.

O nome escolhido, Trachylepis adamastor, é uma clara referência ao gigante dos Lusíadas. A escolha do nome não foi aleatória, mas sim por a espécie e o titã partilharem várias características que claramente os distinguem: o seu habitat numa rocha no "fim do mar" e o seu tamanho (a espécie é uma das maiores do seu género). No geral a nova espécie apresenta-se como uma "lagartixa" típica, de comprimento considerável (entre 9.6 e 11 cm de comprimento de corpo, excluindo a cauda), corpo robusto e coloração bastante escura. Embora a sua ecologia seja ainda bastante desconhecida, assume-se que se alimentará de alguns insectos e de parasitas existentes nos ninhos das aves marinhas que nidificam no ilhéu. A descrição desta nova espécie representa um novo contributo para o conhecimento da biodiversidade mundial, e em particular para a rica e ainda tão desconhecida biodiversidade de São Tomé e Príncipe. Por sua vez, a descoberta de uma nova espécie num ilhéu com condições ambientais bastante duras e completamente isolado do continente e ilhas vizinhas levante interessantes questões do ponto de vista evolutivo, bioogeografico e ecológico.

A descoberta desta nova espécie apresenta no entanto um particularidade: foi descoberta inicialmente com base em especímenes preservados em coleções de História Natural. Os especímenes que estiveram na origem na descrição fazem parte das coleções do Centro de Zoologia do Instituto de Investigação Científica Tropical e foram colectados no início dos anos 70. Durante o levantamento de alguns exemplares nas coleções foram encontrados três frascos com espécimes sem qualquer informação para além da data e do local de colheita. O estudo morfológico destes material apresentou evidências claras de que se estaria perante uma espécie nova para a ciência. Pela mesma altura, aquando de uma expedição ornitológica ao ilhéu, foram fotografados espécimes vivos, confirmando a sobrevivência das populações. A descoberta desta nova espécie é um exemplo claro da importância e valor científico das coleções de História Natural.