Entrevista Cristiane Bastos-Silveira – Comissária Científica da Exposição Reis da Europa Selvagem

Modelo de coexistência entre animais e humanos na Europa é um sucesso

 

 

Nascida em Salvador da Baía, Brasil, confessa que se formou em biologia porque o apelo da natureza veio do mar.  Cristiane Bastos-Silveira rumou a Portugal faz quase três décadas e há nove anos assumiu as funções de curadora da coleção de mamíferos do MUHNAC. É uma das Comissárias Científicas da exposição Reis da Europa Selvagem, onde é possível ficar a conhecer os grandes carnívoros, em tempos gravemente ameaçados na Europa mas agora em franca recuperação.

P: Quem são os Reis da Europa Selvagem e porque são estes os escolhidos?
R: Os reis são o urso, o lobo, o lince e o glutão. Eles são carnívoros de grande porte e estão no topo da cadeira alimentar. Em alguns países da Europa, como o Reino Unido, Bélgica, Dinamarca e Holanda, estas espécies estão extintas. Nos restantes países as populações estão a voltar ou a aumentar. São excelentes notícias.

P: Como surge a ideia de apresentar ao público os últimos grandes carnívoros europeus?
R:
Surge a partir de três situações que fazem parte do quotidiano do Museu. A primeira está relacionada com o facto do Museu ser contactado por instituições ou grupos de investigação que aqui querem expor o resultado dos seus projetos. A segunda prende-se com o facto de indivíduos ou famílias possuírem espólio composto por animais naturalizados e desejarem doar ou depositar no Museu. E a terceira está relacionada com os aspetos científicos e técnicos da curadoria que também responde à missão de disseminação do conhecimento científico por parte dos Museus. Neste caso as três coisas cruzaram-se.

P: Cruzaram-se como?
R:
Tínhamos um dossier de uma coleção privada muito rica, pertencente ao Senhor Valentim Fernandes dos Santos, o contacto do Grupo Lobo para fazer uma exposição no Museu sobre os resultados do projeto europeu Med-Wolf e a nossa capacidade científica e técnica de conceber e montar uma grande exposição.

P: Esta exposição é a forma de apresentar ao público os resultados desse projeto científico?
R:
Sim. É muito importante que os resultados dos projetos de investigação cheguem ao público geral, principalmente este tipo de projeto em que a participação e a recetividade da comunidade relativamente a essas espécies estão na base do sucesso do mesmo porque envolve a coexistência entre as populações humanas e as populações dos carnívoros.

P: Esta exposição tem uma componente muito forte marcada pela missão do museu, como guardião e promotor do acesso às coleções de história natural?
R:
Para além do Museu ser guardião físico dos exemplares de história natural, é importante promover o uso e o conhecimento deste acervo. Os curadores, que aqui trabalham, garantem o acesso físico e digital dos exemplares e da informação associada, geram dados científicos e participam em ações direcionadas à comunidade científica e ao público geral. Estas ações passam pela promoção da utilização das coleções para fins científicos e o seu conhecimento através de exposições ou atividades educativas e lúdicas desenvolvidas no Museu.

P: Esta vai também ser uma oportunidade para o público ver exemplares naturalizados?
R:
Sim. Para além dos exemplares do MUHNAC foi crucial a possibilidade de utilizar uma coleção privada que é muito rica em exemplares das espécies que gostaríamos de abordar na exposição. Neste caso é uma coleção estabelecida pelo senhor Valentim Fernandes dos Santos (1929-1997), para quem a caça era uma atividade muito importante e por isso tem um espólio espetacular. Fomos contactos pela família que gostaria de fazer uma parceria com o Museu porque entendem que aqueles exemplares têm maior valor se estiverem num Museu e principalmente com acesso ao público.

P: Mas o Museu limita-se a aceitar qualquer coleção?
R:
O nosso papel como Museu é avaliar essas coleções principalmente na sua perspetiva científica. Eu tenho estado a estudar a coleção, a documentação (porque o senhor Valentim Fernandes dos Santos era uma pessoa bastante organizada e mantinha registos referente às suas viagens às reservas de caça para a captura dos animais) e avaliado o valor científico e enquadramento desses exemplares em temáticas abordadas no Museu.

P: Da parte do Museu, qual o papel em relação a esta coleção?
R:
Vamos fazer a conservação, a curadoria, a validação e a utilização científica e também a utilização desses exemplares para divulgação junto ao público geral.

P: O que é que o público vai ter a oportunidade de ver de inovador nesta exposição?
R:
A exposição conta uma história baseada em dados científicos recolhidos ao longo dos últimos 10 anos. São dados complexos, porque pertencem a espécies com diferenças na ocupação do espaço, características biológicas, dieta alimentar, tipo de habitat e ameaças à sua sobrevivência. É uma história da realidade europeia relativamente à conservação destas espécies. O nosso objetivo é passar a ideia de unidade e responsabilidade europeia no destino dos grandes carnívoros que ainda habitam o continente. Os resultados do projeto foram descodificados para um maior entendimento pelo público geral e é realçado o valor e o papel histórico e cultural que essas espécies têm para o Homem.

P: Mas há novidades em termos de museografia?
R:
Sim. Uma delas tem a ver com dois dioramas que representam os habitats do lobo-ibérico e do lince-ibérico que foram totalmente produzidos no Museu pelos colegas Pedro Andrade e Ana Campos. A outra trata-se de uma experiência de realidade aumentada que permite a imersão do público num cenário digital com um urso nas Montanhas da Cantábria, na Península Ibérica.

P: Associada a esta exposição estão previstas atividades pedagógicas?
R:
À semelhança do que sempre acontece no MUHNAC, temos atividades pedagógicas que são desenvolvidos pelo Gabinete de Recursos Educativos para a família, grupos específicos, para as escolas, visitas guiadas, entre outras.

P: De que forma se pretende, através desta Exposição, pôr o público a refletir sobre os últimos grandes predadores europeus?
R:
Espero que as pessoas percebam que também têm um papel no que está a acontecer à biodiversidade e de que forma podem incorporar melhores hábitos que contribuam para a preservação da natureza. Essas espécies são especialmente interessantes porque fazem parte da nossa cultura, estão presentes na literatura, em ditados populares, músicas e, infelizmente, envoltas em muito preconceito. Há muitas coisas que não passam pelo aspeto científico, mas que trazem essas espécies para o nosso dia-a-dia. Portanto, apresentar dados científicos que mostram os avanços positivos relativamente a conservação destas espécies e como elas são essenciais ao equilíbrio dos ecossistemas é muito importante.

P: Fomos nós, humanos, que nos desadaptámos da “realidade da natureza” ao longo do tempo?
R:
Essa distância está relacionada com uma expansão urbana que provoca o afastamento das pessoas dos elementos da natureza. Há a ideia de que existe um lugar onde está a natureza e um outro onde nós vivemos. O interessante destas espécies de carnívoros abordadas na nossa exposição é que estão a ser geridas utilizando como base um modelo de coexistência. Ou seja, todos os esforços a nível político, elaboração de leis, ações de conservação e sensibilização das comunidades passam pela aposta na aceitação da existência destas espécies nas mesmas zonas rurais onde ocorrem populações humanas. Em grande parte, o sucesso que está a ser alcançado na Europa deve-se a uma visão e gestão transfronteiriça das populações destes grandes carnívoros e a perceção de que o Homem é parte integrante da natureza e que o modelo de coexistência é possível.