Abaixo das Nuvens

Exposição de Dulce Ferraz

DULCE FERRAZ © jpruas

Quando: 
4 de Setembro de 2020 a 4 de Outubro de 2020
Onde: 

Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência 

A insustentável leveza da matéria

Na exposição Abaixo das Nuvens o visitante é confrontado com a subtiliza das obras da Dulce Ferraz.  O título da exposição é-nos dado pela peça Nº 7 e como nos conta a artista, “trata-se do último carvalho da Quinta no Monte no Funchal, a nossa quinta que ardeu. Quando eu era pequena e cada vez que se perguntava onde é a Quinta? Respondiam é abaixo das nuvens por causa do nevoeiro, então desde criança que achei que abaixo das nuvens era o nome da Quinta.” Estas peças de uma fragilidade e leveza singela ocultam o árduo e minucioso trabalho empreendido pela Dulce e deixam-nos assim, apreciar a exposição enquanto conceito que não se reduz ao plano conceptual.

A exposição é uma obra total onde o compromisso com o espaço, a homogeneidade dos objetos e a sua sobriedade conceptual materializa-se numa poética exteriorização onde a ideia de uma obra orgânica está associada a uma vida de procura e de achados casuais. “Uma obra de arte consiste em dois elementos, o interior e o exterior. O interior é a emoção na alma do artista; essa emoção tem a capacidade de evocar uma emoção semelhante no observador. Estando ligada ao corpo, a alma é afetada através dos sentidos, o sensorial. As emoções são despertadas pelo que é sentido. Assim, o sensorial é a relação física entre o imaterial (emoção do artista) e o material, o que resulta numa obra de arte.” (Hajo DÜchting, in: Kandinsky: 1866-1944: a revolução da pintura. Colónia: Taschen, 2000).

A exposição é composta por 10 peças, realizadas em materiais como o latão, madeira, vidro e espelho e também por elementos da natureza; raízes, ramos e galhos apanhados pela Dulce Ferraz nos seus passeios. “Jardins onde tenho vindo a recolher, ao longo do tempo os resíduos das podas, de ventanias ocasionais, das quedas de folhas, galhos e raminhos secos no outono.” Trabalhos entre a escultura e a joalharia, desenhos no espaço. A harmonia destes objetos são memórias dos seus passeios e resultam numa efémera e linear exposição. A artista no seu processo criativo e intuitivo seleciona a matéria e a forma e numa frenética melancolia guarda os vestígios dos seus devaneios e transforma-os em objetos de arte.

A relação da sala, do Laboratório de Química Analítica com os objetos artísticos expostos transporta-nos para um lugar e um não lugar, onde a natureza está presente e ausente e o laboratório já não é um local de investigação científica. Ou ainda para a relação entre vida e morte, a arte e a natureza. A exposição não só respeita o espaço como interage com ele.

“Entre o meu corpo e a terra houve sempre uma identidade profunda. A floresta ou a montanha que eu trabalho num tronco de árvore ou num bloco de pedra fazem parte integrante do meu ser. O meu trabalho é uma apropriação totalizadora da matéria recriada a dois níveis: o da posse bruta através do furor essencial dos sentidos e o da posse mental pela necessidade de me reencontrar nas raízes de mim mesmo.” (Alberto Carneiro nota biográfica da Fundação Calouste Gulbenkian).

Na exposição sente-se o silêncio e toca-se a natureza, essa relação manifesta-se na linguagem dos limites materiais, sensoriais e por vezes espirituais das peças da Dulce Ferraz.

 

Sofia Marçal

 

Exposição de Arte e Ciência