Algae Odissey

Da artista Ana Kesselring

© Ana Kesselring

Quando: 
2 de Setembro de 2022 a 2 de Outubro de 2022
Onde: 

Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

A importância de ser alga

A Exposição Alga Odissey da artista plástica Ana Kesselring cruza a fotografia com a cerâmica num contexto de correlação entre o corpo humano e os outros corpos com os quais habitamos e interagimos. A exposição parece ser um apelo à consciencialização das inquietações climáticas e abusivas do ser humano, numa contestação pacífica contra os crimes ambientais. Alga Odissey revela uma postura positiva de reinterpretação do meio ambiente na forma como o sentimos e o vivenciamos.

Ana Kesselring no seu trabalho sempre evidenciou a ligação que o corpo humano e feminino, possui com outros corpos. Refletir sobre a interdependência de tudo o que existe no mundo em oposição à individualização do Homem ocidental, do seu sentimento de superioridade sobre a Natureza e consequentemente a destruição do nosso planeta. “No início o ego abarca tudo, só mais tarde separa de si próprio um mundo exterior. O nosso presente sentimento do eu é assim apenas o resquício definhado de um sentimento de longe mais amplo, na verdade, de um sentimento que tudo abarca e ao qual corresponde uma união mais intima do eu com o mundo que o rodeia”.[1]

O trabalho da artista esteve sempre ligado à investigação e é inspirado na Historia Natural, desde que veio para a Europa, com uma bolsa da FAAP de São Paulo em 2006. A artista começou por pesquisar na Biblioteca do Museu de História Natural de Paris e citando Ana Kesselring, “explorei ali as belas imagens de colecionadores de gabinetes de curiosidades, a começar pelas gravuras do gabinete do farmacêutico Albertus Seba (1665- 1736)”. A artista aí viveu e fez o seu mestrado, influenciada pelo antropólogo Maurice Leenhardt e pela descrição de algumas tribos da Polinésia, nas quais os nativos relacionavam o seu próprio corpo com a natureza que os cercava.

A instalação central é composta por dez fotografias impressas em tecido voile transparente, onde intencionalmente a artista pretendeu dar a ideia de leveza e transparência e criar um bloco que se assemelhasse a um corpo.  Interagem umas com as outras, tais corpos femininos, tais algas. Estão colocadas numa sequencia que começa com o corpo da alga e depois vai-se adensando e acaba com o corpo feminino, com a passagem da alga para o corpo feminino.  As fotografias estão suspensas no meio do Laboratório de Química Analítica, parecendo fazer-nos pensar no princípio da ideia do volátil como elemento preponderante na composição. A artista fotografou uma amiga a interagir com as algas que recolheu em Étretat, em França.

As cerâmicas colocadas nas bancadas conferem à exposição horizontalidade, em oposição à verticalidade da instalação fotográfica. Cerâmicas realizadas em alta temperatura, na sua maioria esmaltadas executadas a partir de moldes de vegetais, de peixes e de moluscos. Estes trabalhos partem de uma desconstrução, fragmentação, onde se nota a influência de Bordalo Pinheiro. Ana Kesselring começou a trabalhar estes elementos quando veio a Portugal, “no último ano comecei a trabalhar com a mistura destes elementos com o corpo feminino, moldei o corpo de uma amiga.”

A artista considera todos os corpos de igual importância quer sejam humanos ou não, continuando a citar a artista, “ao mesmo tempo, na exposição o corpo aparece sempre fragmentado, tanto na primeira bancada, que é mais como uma mesa anatómica, como na hotte que remete à relíquia e aos ex-votos. Isso está relacionado à minha história pessoal, por motivos que não vêm ao caso, deixaram-me uma percepção negativa sobre meu próprio corpo, e também pela identidade que busco construir desse corpo-alma através do meu trabalho, das minhas vivências fora do Brasil etc.”

No percepção da desconstrução da exposição sentimos a dualidade da homenagem e do sofrimento, “o movimento explica a forma! — e na sucessão também se encontrava a dor porque o corpo era mais lento que o movimento de continuidade ininterrupta. A imaginação apreendia e possuía o futuro do presente, enquanto o corpo restava no começo do caminho, vivendo em outro ritmo, cego à experiência do espírito...”[2] A exposição de uma sensualidade advinda da água e do feminino, transporta-nos para o imaginário da artista.

As preocupações ambientais são evidentes e refletem-se na exposição que nos alerta no sentido em que a nossa relação com a Natureza pode influenciar o futuro da Terra. “Talvez estejamos apenas numa encruzilhada, a agulha da bússola ainda não se tenha estabilizado na indicação de um norte e tudo isto seja normal. Talvez seja só uma questão de tempo e daqui a nada vejamos mais claro. Contudo, seria equívoco não reconhecer até que ponto vivemos um daqueles momentos em que não conseguimos dizer ao certo para onde caminhamos – nem como sociedade, nem como indivíduos.” [3]

Sofia Marçal

 

 

 

 




[1] Sigmund Freud, in: O Mal-Estar da Civilização, p. 14.

[2]  Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p.23.

[3] José Tolentino Mendonça in: O pequeno caminho das grandes perguntas, p. 70.

 

Curadoria de Sofia Marçal

 

CONVITE

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