De Corpo Perdido

Exposição de Kyo Bouyer

Quando: 
9 de Outubro de 2020 a 2 de Novembro de 2020
Onde: 

Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Fragmentos escultóricos e fotográficos que se contaminam mutuamente

Na exposição De corpo perdido conseguimos visualizar as influencias não só vivenciais como também artísticas da escultora e pintora Kyo Bouyer. A sua infância passada no campo e a companhia de Matisse, Picasso, Rodin, Bourdelle, Louise Bourgeois, Giacometti entre outros, como inspiração. A sua arte começa com um diálogo com a sua própria história, onde a memória tem consensos internos que se materializam em obras escultóricas. “Mesmo numa arte espacial, não é possível separar espaço e tempo para fins de análise. Toda e qualquer organização espacial traz no seu bojo uma afirmação implícita da natureza da experiência temporal.” (Rosalind Krauss, in: Caminhos da Escultura Moderna).

Estes fragmentos escultóricos, são objectos de arte por si só, já em 1915 Brancusi consubstancia a autonomia da cabeça, (como é o caso do recém-nascido) enquanto objecto escultórico. Aqui tanto a escultura como a fotografia precisam da presença física do corpo e apoiam-se nesse compromisso para exprimirem os seus fortes sentimentos e desejos.

Kyo Bouyer num ato de humildade e de reconhecimento não quis ocupar sozinha o protagonismo da exposição.  De corpo perdido nasce da necessidade do diálogo entre a escultura de Kyo e a fotografia de Claude Alexandre. Não há propriamente uma narrativa, mas há uma cumplicidade entre os dois trabalhos que se vai revelando como premissa para que as duas artistas francesas se reencontrem no Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Kyo Bouyer coloca-se no interior da imagem, onde a sua escultura figurativa apela ao trabalho de Claude Alexandre.

Citando a critica de arte Dominique Baqué “Um projeto expositivo que consiste na apresentação de cerca de vinte fotografias a preto e branco, que ecoam com as esculturas: corpo fragmentados, em tamanho natural, tanto em barro, como pó de mármore, bronze ou resina. A exposição De corpo perdido é apresentada num lugar preto e branco com uma ponta de vermelho, a cor favorita da fotógrafa, como o sangue dos touros que se dedicou a fotografar múltiplas vezes em Sevilha, nos últimos anos de sua vida, ou, novamente, como o símbolo da vida e da morte.”

Nesta exposição sentimos a dualidade da homenagem e do sofrimento. Homenagem à amiga e o sofrimento da sua partida. “Na ausência de todo o afastamento interior do sofrimento, é a possibilidade de dirigir sobre ele um olhar que é excluída. Nunca ninguém viu o seu sofrimento, a sua angústia, a sua alegria. O sofrimento, como toda a modalidade da vida, é invisível” (Michel Henr, in: Auto-donation. Entretiens et conferences). A relação entre acontecimentos temporais e os objectos estáticos materializada nesta exposição, adequasse ao asséptico Laboratório de Química Analítica pelo contraste do espaço com as obras expostas. A cumplicidade entre estas duas artistas é tão evidente que conseguimos reviver os seus momentos passados em conjunto.

“À luz do mito dominante, em que a arte visa tornar-se uma “experiência total”, solicitando atenção total, as estratégias de empobrecimento e redução indicam a ambição mais exaltada que a arte pode adotar. Debaixo do que parece ser uma vigorosa

modéstia, senão real debilidade, deve-se discernir uma enérgica blasfêmia secular: o desejo de atingir o ilimitado, não seletivo e completo conhecimento de “Deus”. (Susan Sotang, in: A Vontade Radical – A estética do silencia).

Sofia Marçal
Museóloga / Curadora


Inauguração dia 8 de outubro, 17h00.

Exposição de Arte e Ciência