Diferentes representações de planos e facetas

Exposição da artista plástica Fátima Frade Reis

Quando: 
8 de Outubro de 2021 a 31 de Outubro de 2021
Onde: 

Sala Azul | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

O movimento e o reflexo dos minerais

A exposição Diferentes representações de planos e facetas da artista plástica Fátima Reis transporta-nos para as coleções geológicas e mineralógicas do museu. A artista trabalha a tridimensionalidade na superfície plana do papel, obtendo formas que se assemelham a facetas minerais.

Relacionadas com a ideia de construção de linhas fortes da abstração, pintura da ação, do informalismo, a questão do automatismo é concetualizado no primeiro manifesto do Breton, onde vai ser valorizado o gesto imediato que está na génese da imagem sem qualquer figuração, mesmo que se possa tornar figuração. “No processo de autodefinição, uma forma artística tenderá a eliminar todos os elementos que não estejam de acordo com sua natureza essencial. De acordo com esse argumento, as artes visuais perderão todo significado extravisual, seja literário ou simbólico, e a pintura rejeitará tudo o que não seja pictórico.”[1] A fragilidade dos materiais utilizados na execução destes trabalhos, guache, acrílico,  caneta,  confere aos desenhos uma lógica de expansão das formas e de movimento da luz com os reflexos nos vários elementos geométricos.

Nestes desenhos podemos estabelecer um paralelo não formal, mas conceptual com a fragilidade metaforizada na cultura japonesa. “O gosto pela horizontalidade não é uma característica peculiar apenas do espaço arquitetónico. Os pés dos dançarinos nas danças japonesas seguem o piso, e os dois pés nunca se erguem do chão ao mesmo tempo. O mesmo acontece com os movimentos dos atores no palco. No teatro , os atores se movimentam-se na vertical e na horizontal, mas não se movimentam para cima e para baixo. [2] Os desenhos têm movimento próprio, autónomo, que se já está a movimentar mesmo antes de encontrarem a figura geométrica. A técnica utilizada é a gravura, o desenho, a pintura e a aguarela.

Estes desenhos são baseados em planos, nos minerais daí planos e facetas como nos diz Fátima Reis. A artista utilizou a estrutura geométrica de várias formas, polígonos, reflexos, luzes para criar movimento às suas composições. “A liberdade que às vezes sentia não vinha de reflexões nítidas, mas de um estado como feito de percepções por demais orgânicas para serem formuladas em pensamentos. Às vezes no fundo da sensação tremulava uma ideia que lhe dava leve consciência de sua espécie e de sua cor.”[3] Desenhos com transparências, com reflexos da passagem da luz e com a  criação de outras cores. A questão da cor é importante nestes desenhos, pensar a cor não só em termos de pura espacialidade, mas de perceção, onde as cores utilizadas têm uma relação com os minerais e contrastam com o papel branco. 

A artista tem uma ideia de uma estrutura inicial, pequenas formas que se vão quebrando e juntado, umas mais pequenas outras maiores e movimenta-as para criar novas composições.  Os desenhos começam a afastarem-se da parede, vêm para o espaço. A perceção duma superfície cromática torna-se dinâmica, encarnada num objeto geométrico que anda à volta a experimentar e a ver onde se vai fixar.

Estas são as primeiras experiências de Fátima Reis, a artista tem a intenção de dar continuidade a estes trabalhos. Parte do trabalho apresentado foi pensado especialmente para esta exposição, vem de um projeto iniciado anteriormente e que ganhou nova dinâmica, novos reflexos, a desenvolver no futuro.

O movimento dos desenhos passa para a exposição. As transparências, as texturas, os reflexos, as sombras e a geometria dos minerais, começam a ter formatos próprios e propiciam a desconstrução da ideia duma expectativa daquilo que não é visível, preenchida de modo racional e percetual pela artista.

 

Sofia Marçal

www.fatimafradereis.com

 

[1] Barbara Rose, in: Movimentos artísticos desde 1945, Edward Lucie Smith, p.96.

[2] Shuichi Kato,  in: Tempo e Espaço na Cultura Japonesa, p. 191.

[3] Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p. 23.

 

Inauguração dia 7 de outubro, das 17h00 às 20h00

Exposição de Arte e Ciência