Épure

Da artista Julia Dupont

Quando: 
1 de Agosto de 2019 a 1 de Setembro de 2019
Onde: 

Museu Nacional de História Natural e da Ciência, sala A137

 
O silêncio do tempo
 
A exposição Épure da artista francesa Julia Dupont é composta por 8 fotografias sobre o antigo Convento de Santa Cruz, na serra de Sintra. A artista captou o espírito do lugar e o seu trabalho carrega o conceito do tempo. As fotografias não ficam presas à sua dimensão, há uma nítida dilatação do espaço onde a obra encontra o tempo. Onde se sente o despojo de São Francisco de Assis, a paz, a espiritualidade e a serenidade.
 
Citando a artista, «tentei assinalar alguns traços da concepção que erigiu este lugar, e compus finalmente uma evocação pontual do meu percurso dentro dele. A minha imersão procedeu também dum processo no tempo, através dos relatos sobre a sua história e as existências que abrigou».
 
O que a Julia Dupont fotografa não são os elementos naturais, a sua intenção é atingir o princípio da criação, a ideia do vazio, do silêncio, do passado. Enaltecer a importância do princípio interno e não a forma constante. «Deixando depois de si o intervalo perfeito como um único som vibrando no ar. Renascer depois, guardar a memória estranha do intervalo, sem saber como misturá-lo à vida. Carregar para sempre o pequeno ponto vazio — deslumbrado e virgem, demasiado fugaz para se deixar desvendar.» (Clarice Lispector, in Perto do Coração Selvagem.) A natureza é estética porque nos proporciona estados de prazer espirituais ao nosso sentido mais genuíno e ingénuo.
 
Esta série de fotografias é como um poema, a sua narrativa conta a história dos vestígios, das memórias que vêm ao seu encontro deixados por outras vidas. Tendo por base um movimento e associações livres dos fragmentos captados. «Quando, no decorrer das nossas observações, tivermos que mencionar a relação de uma imagem poética nova com um arquétipo adormecido no inconsciente, será necessário compreendermos que essa relação não é propriamente causal. A imagem poética não está submetida a um impulso. Não é o eco de um passado. É antes o inverso: pela explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa em ecos e não se vê mais em que profundidade esses ecos vão repercutir e cessar. Pela sua novidade, pela sua actividade, a imagem poética tem um ser próprio, um dinamismo próprio.» (Gaston Bachelard, in Poética do Espaço.)
 
A luz aqui representada dá ênfase à espiritualidade ainda visível nos seus interiores. Preservando os elementos que compõem essa paisagem arquitectónica primitiva que ainda não foi destruída, pedras, cortiça, plantas, musgos, constroem o lado íntimo e devassado pelo abandono. 
 
Sofia Marçal, Curadora
Julho de 2019
 
 
 
Exposição de Arte e Ciência