Herbário Revolucionário

Exposição da artista plástica Margherita Isola 

Quando: 
6 de Agosto de 2021 a 29 de Agosto de 2021
Onde: 

Sala Azul | Museu Nacional de História Natural e da Ciência 

O herbário, uma aliança poética entre as plantas e as mulheres

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência é o local próprio para apresentar a exposição Herbário Revolucionário da artista plástica Margherita Isola, uma vez que evoca diretamente as coleções científicas do museu. Como é o caso da HERBÁRIO LISU (VASCULARES). As coleções de plantas vasculares do herbário LISU incluem, para além das coleções de Portugal, da Macaronésia e das antigas colónias portuguesas, importantes coleções históricas de plantas africanas e do Brasil, com grande interesse científico e museológico. São de destacar as coleções históricas de F. Welwitsch D. Vandelli, Alexandre Rodrigues Ferreira, F. A. Brotero e F. Valorado”[1]

A ideia da exposição nasceu do conceito do herbário, como catálogo de plantas, como coleção de plantas prensadas e secas, dispostas segundo determinada ordem e disponíveis para referência ou estudo. Citando a artista, “as plantas são muito importantes para mim e este meu herbário coleciona plantas medicinais que eu colhi em diferentes lugares do mundo.”  A formação de herbários iniciou-se no século XVI em Itália, como coleções de plantas secas e cosidas em papel. O Herbário Revolucionário faz a ligação ao mundo científico e medicinal. “Pois todas as flores falam, cantam, mesmo as que desenhamos. Não se pode desenhar uma flor, um pássaro, permanecendo taciturno.”[2]

A exposição é composta por 15 trabalhos que a artista selecionou tendo em conta a localização de cada planta, começa com a planta Mate sagrada para os povos guarani do Brasil. O Herbário Revolucionário é como se fosse um livro em tecido sobre plantas abençoadas. Há obras de arte que têm uma intervenção na sociedade que se aproxima da intervenção médica, nelas condensam determinados desejos propiciatórias de cura e posiciona o desenho bordado no seu contexto de origem.

O objetivo geral da gestão de um herbário é a colheita e conservação de exemplares de plantas com as respetivas etiquetas. Destas etiquetas fazem parte elementos referentes ao local e data da colheita, nome do coletor e a identificação da espécie em questão (binome latino seguido do nome do classificador). Aqui a artista coloca primeiro a nomenclatura popular, despois a nomenclatura científica, lugar de origem e a descrição das propriedades. Bordado a branco tem a informação criptografada dos saberes ancestrais e do saber científico.

Dar voz às plantas é um dos conceitos da exposição, muitas tiveram uma história de opressão como muitas mulheres. Estes desenhos traçam uma aliança poética entre as plantas e as mulheres.  A exposição também tem como objetivo chamar a atenção para o interesse político e económico que está por detrás das plantas. Como nos diz a artista “Os princípios terapêuticos, foram deliberadamente esquecidos ou afastadas de circulação para defender os interesses dos lobbies farmacêuticos.  Como é o caso da planta do tabaco que para os povos indígenas era uma planta medicinal e utilizada também em rituais.” Estes desenhos representam plantas ancestrais, mas extremamente contemporâneas em relação às doenças que podem prevenir e curar.

Os desenhos bordados não são apenas elementos de transmissão de conteúdos visuais, mas também transmissão de conteúdos verbais, no diálogo com a obra de arte e revelando “uma mensagem portadora de um intento. O estilo, as figurações explícitas da mensagem podem ser perversas, podem visar subjugar ou arruinar o recetor. Podem proclamar diretamente, como acontece em Sade, na pintura negra de Goya, na dança mortal de Artaud, a licença sombria do suicídio. Mas a sua pertinência para as questões e consequências de ordem ética só se torna com isso mais sensível. Só o lixo, o kitsch e os artefactos, os textos e a música produzidos exclusivamente com fins monetários ou de propaganda transcendem (transgridem) de facto a esfera da moral. São a pornografia da insignificância.”[3] O Herbário Revolucionário é concebido como uma obra em progresso, a ser enriquecida com novas páginas e com novas plantas de diferentes contextos, inserida no tempo do “feito à mão”.

Uma linha, um fio, um bordado, um desenho.  As plantas criadas pela mão da artista, que vão crescer no museu. “E sonho com luxuriantes grandezas aprofundadas em trevas: alvoroço da abundância, onde as plantas aveludadas e carnívoras somos nós que acabamos de brotar, agudo amor – lento desmaio.”[4]

Sofia Marçal

 

Inauguração dia 4 de agosto, das 17h00 às 20h00 




[1] Site do museu.

[2] Gaston Bachelard, in: A poética do espaço, p.312.

[3] George Steiner, in:  Presenças Reais, p.134

[4] Clarice Lispector, in: Água viva, p.75 

 

Exposição de Arte e Ciência