L'appel du vide

Exposição de Lourenço da Câmara Lomelino

Quando: 
6 de Junho de 2019 a 30 de Junho de 2019
Onde: 

Sala Azul | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

No tempo em que os animais falavam

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência, enquanto espaço de divulgação de ciência, mas também lugar de encontro ente a ciência e a arte, é o sítio adequado para a realização da exposição L'appel du vide do artista plástico Lourenço Lomelino, localizada junto ao corredor das colecções naturalistas.

O apelo ao vazio é uma expressão usada para referir pensamentos intrusivos, ou comportamentos destrutivos. Lourenço Lomelino com as suas pinturas remete-nos para esse universo onde reina uma calma aparente e onde poderemos imaginar que estes animais aqui desenhados como elementos simbólicos e deliberadamente estereotipados, não são uma mera representação mas sim mensageiros da sua própria extinção e da consciência do artista.

“Na primeira e linear versão da relação da arte com a consciência, discernia-se uma luta entre a integridade “espiritual” dos impulsos criativos e a “materialidade” perturbadora da vida comum, que tantos obstáculos colocam à trajectória da sublimação autêntica. Porém a versão mais recente, em que a arte é parcela de uma transacção dialéctica com a consciência, apresenta um conflito mais profundo e frustrante. O ‘espírito’ que busca a corporificação na arte choca-se com o carácter ‘material’ da própria arte.” (Susan Sontag, in A Estética do Silêncio, A Vontade Radical).

O percurso artístico do Lourenço Lomelino tem sido construído através da sua prática e da sua dedicação permanente ao desenho, à pintura, à arte. Conseguiu criar uma relação entre o processo criativo e o seu resultado final. Tornando-se por vezes prisioneiro do registo imaginário mas pragmático da sua obra, desafiado pela sua constante, obsessiva e por vezes perturbadora inspecção metódica, numa dialéctica permanente  entre a fantasia e a realidade.

“Sentia o cavalo vivo perto de mim, uma continuação do meu corpo. Ambos respirávamos palpitantes e novos. Uma cor maciamente sombria deitara-se sobre as campinas mornas do último sol e a brisa leve voava devagar. É preciso que eu não esqueça, pensei, que fui feliz, que estou sendo feliz mais do que se pode ser. Mas esqueci, sempre esqueci.” (Clarice Lispector, in Perto do Coração Selvagem)

A exposição composta por 21 pinturas, colocadas como um painel onde intencionalmente a sequência se constrói sem narrativa, mas sem esvaziar a ideia da exposição. No processo de recolha Lourenço Lomelino é um coleccionador do mundo, da sociedade e com o seu método de trabalho as suas pinturas inserem-se dentro de uma representação mais ou menos metafórica, mais ou menos simbólica da morte o que nos leva por oposição para uma outra perspectiva que marca a contemporaneidade que é a da representação enquanto conotação, enquanto poética, enquanto linguagem figurada, metáfora para uma literalidade crua, sem artifício, despojada.

“Os homens têm necessidade da culpa porque ela funciona como um excitante para criar. Têm que criar as excitações da culpa. Têm que ser criminosos. É tão simples como isso.” (Agustina Bessa-Luís)

Sofia Marçal

 

Inauguração dia 5 de junho, às 19h00

Exposição de Arte e Ciência