Flowers

Exposição do artista plástico Manuel Valencia

Quando: 
4 de Junho de 2021 a 4 de Julho de 2021
Onde: 

Sala Azul | Museu Nacional de História Natural e da Ciência 

Até que o sol não brilhe, acendamos uma vela na escuridão

Manuel Valencia, artista plástico espanhol, estudou pintura na Holanda. Vive e trabalha atualmente em Madrid. A sua paixão pela cultural oriental desenvolveu-se enquanto Embaixador de Espanha na China e os seus desenhos evidenciam a sua passagem pelo Oriente. O que o artista pinta não são os elementos naturais, a sua intenção é atingir o princípio da ideia do volátil como elemento preponderante na composição que é tão importante como o concreto na filosofia oriental.

A exposição Flowers é composta por uma coleção de flores imaginárias, com nomes botânicos latinos inventados, mas seguindo a nomenclatura binomial de Lineu. Com graciosidade e inteligência Manuel Valencia brinca com isso, criando flores que não existem com a classificação própria do museu que também não existe. É esta apropriação metodológica, este experimentalismo na abordagem do processo da criação artística que se entrecruza com o empirismo da ciência, se relaciona e se enquadra no Museu Nacional de História Natural e da Ciência. A exposição é o complemento da vivência do Manuel Valencia e da sua relação com o belo, “numa palavra, para que toda a modernidade seja digna de tornar-se antiguidade, é preciso extrair dela a beleza misteriosa que a vida humana coloca involuntariamente nela.”[1] Na qual o artista dá importância ao princípio eterno e não à forma constante tal como acontece na Natureza.

O propósito de Manuel Valencia é a observação atenta da Natureza e o seu projecto é aliar-se, fundir-se e compreender o que a natureza lhe oferece em cada experiência. “Cree el vulgo que es cosa fácil huir de la realidad, cuando es lo más difícil del mundo. Es fácil decir o pintar una cosa que carezca por completo de sentido, que sea ininteligible o nula: bastará con enfilar palabras sin nexo, o trazar al azar. Pero lograr construir algo que no sea copia de lo ‘natural’, y que, sin embargo, posea alguna substantividad, implica el don más sublime.”[2] A ideia da natureza está enraizada no seu trabalho, na sua estética e nos materiais que utiliza, pinta sobre papel porque é orgânico. Na China, a cultura oriental nunca separou o ser dos objectos, existe um devir conjunto de todas as forças da natureza.

Os desenhos que compõem a exposição são pintados com pigmentos, grafite e acrílicos sobre papel chinês feito à mão. Manuel Valencia gosta de misturar os materiais, sentir as várias texturas, desenhar a pintura como contraste entre a luz e a sombra, enquanto o gesto do pincel se emancipa como médium. A sua atitude, o seu processo artístico e a sua sensibilidade fazem lembrar um conto oriental de Marguerite Youcenar. “Wang-Fô poderia ter sido rico, mas gostava mais de dar que de vender. Distribuía as pinturas que fazia por quem as apreciasse verdadeiramente, ou então trocava-as por uma tigela de comida. O seu carinho ia todo para os pincéis, para os rolos de seda ou de papel de arroz, e para os pauzinhos de tinta de diversas cores que ele fricionava contra uma pedra para misturar o pó numa pequena porção de água”.[3] A obra do Manuel Valencia vive cada vez mais da poesia, cada vez mais do contexto e da narrativa associada à própria arte.

Manuel Valencia obedece à sua sensibilidade e o seu ato criativo vem da contemplação e da observação atenta e sentida da Natureza. Citando o artista “En Oriente es habitual compatibilizar el arte, la caligrafía y la poesía con otras actividades. Los mandarines y hasta los emperadores como Huizong o Mao Tse Tung, lo hicieron. Te da otra perspectiva sobre la vida”.  Sem a sua sabedoria emotiva e vivencial não era possível a construção destes trabalhos. Sente-se a influência oriental na combinação da escrita com o desenho e também na ideia do vazio como um elemento preponderante, tão ao gosto da cultura chinesa que ao contrário da nossa, é feita de mutações e da impermanência.  

“Nós amamos algo para além do belo? E o que é isso gracioso? O que é a beleza? O que é que nos atrai e nos leva para as coisas que amamos? Porque certamente se não houvesse neles alguma graça e beleza, de forma alguma eles nos atrairiam para si mesmo.”[4] Manuel Valencia como amante da Arte e da Botânica desenhou estas pinturas que têm como essência a importância da natureza como suporte e elemento da própria vida. Respeita o silencio e o seu entendimento da efemeridade da natureza, onde tudo morre e as flores também…

“Líbreme Dios de querer compararme con Cervantes ni con Goya, pero es con este espíritu con el que he querido y quiero levantar todas mis obras: tratando de conquistar la belleza con toda mi alma, con las armas de la razón y las de la imaginación. Con el duro deseo de durar como impulso primario de la creación como nos dice Paul Eluard. Com la voluntad de permanecer en la memoria de los hombres. O como de manera más sencilla y bonita lo decía Federico García Lorca: ‘Escribo para que me quieran´”.[5] Manuel Valencia pinta para que o amem.

Sofia Marçal

Inauguração, dia 2 de junho, 17h00. 




[1] Charles Baudelaire, in: O pintor da vida moderna, pp. 26.

[2]  Ortega y Gasset, in: La Deshumanización del Arte, pp. 36.

[3] Marguerite Youcenar, in: A fuga de Wang-Fô. pp.5. 

[4] Santo Agostinho, in: Confissões. IV.13. 44..

[5]Alberto Campo Baeza, in: Buscar denodadamente la beleza, pp.15.

 

Exposição de Arte e Ciência