Gabinetes de Paisagem

Exposição da artista plástica Rita Carreiro 

Quando: 
8 de Outubro de 2021 a 31 de Outubro de 2021
Onde: 
Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Objectos de Paisagem poisados num Laboratório

A exposição Gabinetes de Paisagem, da artista plástica Rita Carreiro pretende explorar a relação do natural com o artificial, a artista apropria-se da paisagem e transforma-a em objetos para serem exibidos num museu, neste caso no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa. Estas paisagens capturadas e permanentes, são antagónicas à paisagem natural essa sim, efémera.

Os objetos surgem associados a variadas formas e suportes com a intenção de ajudar a artista a construir associações de ideias e percursos paralelos às nossas memórias, numa autonomia onírica que se alia poeticamente ao romantismo. “Enquanto ela vivera o sonho, observara as coisas ao redor, usara-as mentalmente, nervosamente, como quem crispa as mãos na cortina enquanto olha a paisagem.”[1] A influência da paisagem nos trabalhos expostos, onde a tempestade o sublime estão em diálogo com a arte e com a sua própria história, com a sua memória. Desenhos que são interpretações de árvores melancólicas que a artista viu no Museu Dr. Guislain na Bélgica, ainda a funcionar como Hospital psiquiátrico e onde realizam exposições de arte com trabalhos dos seus pacientes.

A artista faz uma aproximação aos gabinetes de curiosidades, criados na Europa a partir do final do século XV até ao século XVIII. Salas onde eram depositados variadíssimos objetos de arte, instrumentos de ciência, animais, plantas e curiosidades ligadas às expedições realizadas ao novo mundo. Onde o desejo de preservar, de abrigar, de proteger assim como a exposição pública das coleções, conduziu à criação dos Cabinet d’Amateur que deram origem a grande parte dos museus. Rita Carreiro criou os Gabinetes de paisagem, reinterpretações do que viu e sentiu e a pensar neste espaço, no Laboratório de Química Analítica, onde se expõem trabalhos de chão, como se fossem lápides, desenhos lapidais, recriando a paisagem como objeto, com espelhos para através de reflexos multiplicarem a ilustração da paisagem e não tanto o representar essa realidade exterior, essa autoridade do próprio, mas sim propor novos espaços ao visitante.

Conviver com tensões, articular antagonismos para possibilitar esclarecimentos, permitir avanços em campos de conhecimento, ter a liberdade para fazer opções. “Em todas as artes existe uma parte física que não pode continuar a ser olhada nem tratada como outrora, que já não pode subtrair-se ao conhecimento e potência modernos. Nem a matéria, nem o espaço, nem o tempo são desde há vinte anos o que foram até então. É de esperar que tão grandes inovações modifiquem toda a técnica das artes, agindo, desse modo, sobre a própria invenção, chegando talvez mesmo a modificar a própria noção de arte em termos mágicos.”[2] A Rita Carreiro oferece uma oportunidade de se refletir sobre a nossa relação com um mundo “de formas domesticadas e planificadas, catalogáveis e por isso mesmo ao nosso alcance em contraste com um mundo estranho, distante e tão real que nos escapa.” Citando a artista.

Rita Carreiro decidiu focar o seu projeto na ideia da representação da paisagem como objeto colecionável. A Paisagem objeto, e privilegia um olhar na relação com o outro. “Também o homem teórico, como o artista, experimenta um prazer infinito com o que existe e, como este, também se encontra graças a essa satisfação encoberta pela ética prática do pessimismo e dos seus olhos de lince que só brilham à distância. Assim, antes de cada desvelamento da realidade, o artista está sempre pendente com os olhos extasiados daquilo que, mesmo agora, depois de desvendado, continua a ser um véu. Enquanto o homem teórico desfruta e extrai a sua alegria do facto do véu ter sido retirado e projeta-se no processo de um descobrir sempre bem-aventurado, obtido com as suas próprias forças.”[3] Esta exposição está em plena harmonia com o espaço sem nele interferir, sem o denegrir e onde os trabalhos são poisados silenciosamente até à sua partida.

 

Sofia Marçal




[1] Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p.96.

[2] Walter Benjamin, in: A Obra de Arte na era da sua reprodutibilidade técnica, p.72.

[3] Friedrich Nietzsche, in: Ilusão e verdade da arte, p.44-45.

 

Inauguração: 7 de outubro, das 17h00 às 20h00

Exposição de Arte e Ciência