La Figure et le Corps

Projeto Fotográfico de Teatro - Ricardo Zúquete

Quando: 
5 de Março de 2022 a 16 de Abril de 2022
Onde: 

Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Projeto fotográfico de teatro - a experiência da expressão corporal, a figura e narrativa num espaço.

Dentro deste laboratório está um ensaio fotográfico sobre a imagem e presença do corpo. Somos espetadores dos lugares que habitamos, e atores dessas mesmas paisagens. Um universo de estímulos promove, provoca, organiza movimentos do nosso corpo. A imagem que é para os outros ganha um significado, uma entidade própria de uma figura; um corpo que expressa um mapa emocional, na lentidão de movimentos ou na sua pressa, numa brutalidade, numa elegância. Basta um olhar esquivo ou cativante. O corpo é o nosso ator, a figura do nosso ser; que nos divulga nas poses tímidas, que nos denuncia quando nos apanha distraídos. O nosso corpo “é um centro de ação”, e a sua figura, presença, gestos, ambivalências, hesitações, repousos, somos nós e testemunho da nossa relação com o mundo. Talvez essa consciência expressiva do nosso corpo seja a “lembrança mais pura da união do corpo com a Alma”, como escreveu Henri Bergson.

 

Ricardo Zúquete

 

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O corpo no Laboratório

 

A exposição A figura e o corpo projecto fotográfico de teatro de Ricardo Zúquete, Arquitecto de formação, é composta por um conjunto de fotografias que fazem a cenografia do espaço, colocadas como se fossem actores. O fotógrafo artista faz do Laboratório de Química Analítica o palco para os seus trabalhos fotográficos. Estes registos teatrais, laboratoriais, pedaços de memórias materializaram-se, “e há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo transforma-se num dom. E sente-se que é um dom porque se está experimentando, em fonte direta, a dádiva de repente indubitável de existir milagrosamente e materialmente.”[1] Esta exposição tem uma dimensão visual onde cada imagem carrega outras imagens, construindo uma narrativa visual.

Duas expressões artísticas que neste antigo laboratório se completam, a fotografia e a cenografia.  O conceito da fotografia como imagem deve ser entendido aqui de uma forma ampla que engloba as construções visuais e as suas representações, independentemente da ordem dimensional, num desafio intencionalmente emocional. “O desafio, a atração e a sedução do Outro tornam toda a distância, ainda que reduzida e minúscula, insuportavelmente grande. A abertura tem a aparência de um precipício. Fusão e subjugação parecem ser as únicas curas para o tormento. E não há senão uma tênue fronteira, à qual facilmente se fecham os olhos, entre a carícia suave e gentil e a garra que aperta, implacável. Eros não pode ser fiel a si mesmo sem praticar a primeira, mas não pode praticá-la sem correr o risco da segunda. Eros move a mão que se estende na direção do outro — mas mãos que acariciam também podem prender e esmagar.”[2] A exposição é um momento concreto, deliberado e organizado, uma espécie de jogo entre as personagens, os corpos, o espaço e o tempo.

Como nos diz Ricardo Zúquete, “dentro deste laboratório está um ensaio fotográfico sobre a imagem e presença do corpo. Somos espectadores dos lugares que habitamos, e actores dessas mesmas paisagens. Um universo de estímulos promove, provoca, organiza movimentos do nosso corpo. A imagem que é para os outros ganha um significado, uma entidade própria de uma figura; um corpo que expressa um mapa emocional, na lentidão de movimentos ou na sua pressa, numa brutalidade, numa elegância. Basta um olhar esquivo ou cativante.” A triangulação, obra de arte, espaço e espectador são vértices equidistantes do artista em constante equilíbrio.

Neste tempo ao qual se pretende anular o sentido transcendente da arte, Ricardo Zúquete propõe com o seu trabalho fotográfico superar o poder da materialização. A ideia, o conceito da exposição é explorar o papel do observador do espectador. A fotografia no trabalho do artista é um instante, um momento concreto, num espaço deliberado e organizado, um jogo de sombras e cores em harmonia estática, onde o corpo utópico é protagonista. “A que se deve o prestigio da utopia, a beleza, o deslumbramento da utopia? A utopia é um Iugar fora de todos os lugares, mas um lugar onde eu teria um corpo sem corpo, um corpo que seria belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal na sua potencia, infinito na sua duração, solto, invisível, protegido, sempre transfigurado; pode bem ser que a utopia primeira, a mais inextirpável no coração dos homens, consista precisamente na utopia de um corpo incorporal.”[3] Esta exposição fotográfica coloca-se ao nível da linguagem do nosso espírito crítico da transcendência da dimensão estética.

As fotografias devolvem o olhar a quem está em cena.

 

Sofia Marçal


[1]Clarice Lispector, in: Água Viva, p.39

[2] Zygmunt Bauman, in: Amor liquido – Sobre a Fragilidade dos laços humanos, p.19.

[3] Michel Foucault, in:  O Corpo utópico, as heterotopias, p8.

 

Inauguração da exposição: 4 de março, 18h00

CONVITE

Exposição de Arte e Ciência