Microscópio Eletrónico RCA

Objeto do mês de janeiro 2022

Microscópio eletrónico RCA na exposição permanente do Museu Nacional de História Natural e da Ciência | | Foto © Miguel Teixeira

O microscópio eletrónico em destaque este mês pertence à Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e está em depósito no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

A microscopia eletrónica foi iniciada por Ernst Ruska na década de 1930 e teve um grande desenvolvimento no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial.

No final da década de 1950, o então jovem médico José Francisco David Ferreira (1929-2012), estagiou no Institut de Rechérches sur le Câncer/Institut Gustave-Roussy em Villejuif (França), onde contactou de perto com as técnicas de microscopia eletrónica aí desenvolvidas.

Ao mesmo tempo, em Portugal, a direção do Instituto Português de Oncologia procurava adquirir um microscópio para a criação de um centro de microscopia eletrónica. Em 1957, Francisco Gentil (1878-1964) - então diretor dessa instituição - sugere a David Ferreira a aquisição de um microscópio eletrónico produzido pela marca Philips. No entanto, David Ferreira discorda da escolha dessa marca e opta pelo microscópio da RCA. Tal decisão teve por base a sua experiência em França com esse microscópio que considerava de “manipulação mais fácil e portanto de maior rendimento de trabalho”.

Simultaneamente, o diretor do Instituto de Histologia e Embriologia da FMUL, Xavier Morato (1906-1989), incentivou David Ferreira a regressar a Lisboa e a preparar o seu doutoramento. Nesse sentido, procurou garantir as melhores condições para o desenvolvimento de trabalhos de microscopia eletrónica na FMUL.

Entre outros, Morato mantém um contacto próximo com Azeredo Perdigão (1896-1993). O apoio do presidente do conselho de administração da Fundação Calouste Gulbenkian foi crucial no sentido de encontrar o financiamento necessário para a criação de um laboratório de microscopia eletrónica, o que vai acontecer poucos anos após a criação da Fundação.

David Ferreira acaba por regressar à FMUL em finais de 1957. A 15 de maio de 1958 foi inaugurado o Laboratório de Microscopia Eletrónica Calouste Gulbenkian, no Instituto de Histologia e Embriologia da FMUL. A aquisição deste equipamento por parte da Fundação - o primeiro microscópio eletrónico da Faculdade de Medicina, foi um momento chave para a investigação médica. A sua utilização permitiu a realização de estudos de citologia com uma ampliação e detalhe que até então não eram possíveis.

Apesar de já existirem outros microscópios eletrónicos em Portugal, a falta de pessoal especializado era conhecida. A formação adquirida por David Ferreira no estrangeiro foi crucial para a utilização deste equipamento, realização dos estudos de citologia e formação de estudantes e colegas.

Na opinião de Xavier Morato, o desenvolvimento de estudos citológicos apoiados na microscopia eletrónica, deveria iniciar-se na FMUL, pela mão de David Ferreira e do próprio Morato, assegurando à instituição e seus investigadores uma posição de relevo no campo da investigação nacional.

David Ferreira doutorou-se em 1960, com base nos trabalhos realizados inicialmente em Villejuif e mais tarde em Lisboa, com o apoio deste microscópio eletrónico. A sua tese foi classificada com 20 valores, a mais elevada nota até então atribuída pela Faculdade de Medicina.

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência preserva uma significativa coleção da Faculdade de Medicina, bem como parte do espólio de José Francisco David Ferreira. O Arquivo de Ciência e Tecnologia/FCT tem à sua guarda a documentação do médico e professor, acessível online.

 

Microscópio eletrónico | Electron microscope RCA EMU-3

Fabricante | Maker: RCA, Estados Unidos da América | United States of America, c.1955-1957

Proveniência | Provenance: Depósito da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa | Long-term loan by Faculty of Medicine, University of Lisbon

MUHNAC-UL-DEP3500

 

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