Plantas e Povos | Núcleo CUIDAR

O reino vegetal foi sempre o que mais contribuiu para o cuidado do corpo, a sua aparência, alimentação e cura, desde a Pré-História, passando pelas antigas civilizações do Egito, da Mesopotâmia, do Vale do Indo e da China, até à Idade Contemporânea.

As plantas representam cerca de 80% da alimentação humana, embora o homem apenas consuma um número reduzido de espécies. Nos últimos 100 anos, sobretudo depois da II Guerra Mundial, a agricultura industrializou-se e as explorações especializaram-se numa única produção. A dependência dos fertilizantes e pesticidas cresceu de forma gradual até ao presente. A economia de mercado sobrepôs-se, desde o século XIX até aos dias de hoje, à economia de subsistência.

As plantas foram sempre a principal fonte de materiais e de conhecimento para a produção de medicamentos, desde a Antiguidade até à Época Contemporânea. No início do século XX, com a introdução dos medicamentos preparados industrialmente com substâncias ativas obtidas por síntese química, assistiu-se a um crescente desinteresse pelo estudo das propriedades medicinais das plantas. Esta situação alterou-se no final do século, abrindo-se o caminho para a etnofarmacologia, com a aplicação de saberes interdisciplinares ao estudo das plantas medicinais usadas por vários povos do globo.

CUIDAR | ESTÉTICA 

As sociedades contemporâneas tendem a estabelecer uma separação clara entre cosméticos e medicamentos. Mas nem sempre foi assim. A limpeza do corpo, a sua decoração ou o uso de substâncias perfumadas, eram vistos como uma forma de purificar e proteger os homens da intervenção indesejada de deuses, demónios ou outros espíritos.

No Antigo Egito, o incenso e a mirra, misturados com óleo de sésamo, de amêndoa, ou azeite, eram muito valorizados como perfume e usados também na preservação dos corpos dos mortos.

Os antigos bretões pintavam o corpo com uma tinta obtida a partir da Isatis tinctoria (pastel-dos-tintureiros) e os nativos americanos tinham um código de pintura corporal com utilização de tintas obtidas de plantas. No norte de África e Oriente ainda persiste o hábito de decorar o corpo com hena. Em anos mais recentes, nas sociedades ocidentais, tatuar o corpo tornou-se uma prática comum na cultura pop.

Desde a Grécia Clássica até ao século XVII, o odor era considerado como uma forma privilegiada de determinar as propriedades medicinais das substâncias. Nos séculos XV a XVII, pensou-se que seria possível concentrar a atividade medicinal de uma planta através do seu aroma, produzindo essências por destilação de material vegetal. Muitos preparados que hoje são considerados perfumes e cosméticos, como a Água de Colónia, foram produzidos e consumidos como medicamentos.

 

 


Pente 
Col. Museu Agrícola Colonial
IICT -MAC/390


CUIDAR | ALIMENTAR

Cereais
Os cereais pertencem à família das Gramíneas, a mais importante no mundo, do ponto de vista económico. Os cereais mais cultivados são o milho, o arroz e o trigo. O milho (Zea mays)

foi domesticado a partir de 5 000 a.C. na América Central e está na base da alimentação humana nesta zona e em África, apesar de grande parte da sua produção se destinar a outros fins. O arroz (Oryza sativa) é o cereal mais cultivado nas regiões tropicais e em algumas regiões temperadas e está na base da alimentação de metade da população mundial. O trigo (Triticum aestivum) é o cereal mais cultivado nas regiões temperadas e é consumido em todo o mundo. 

Leguminosas 
A família das Leguminosas inclui as plantas em que as sementes estão contidas numa vagem, como os trevos, as ervilhas, o grão-de-bico, os feijões, as lentilhas, a soja e o amendoim. Consumimos diversas espécies há milénios pois são plantas muito ricas em proteínas, fibras e minerais e um garante da nossa alimentação, principalmente face às atuais alterações globais. As Leguminosas são capazes de fixar o azoto atmosférico através de nódulos nas raízes, contribuindo para o aumento da fertilidade dos solos. 

Especiarias 
As especiarias, originárias da Índia, Arábia, Etiópia e Síria, eram utilizadas já no Império Romano como condimentos para a culinária e na confeção de perfumes e medicamentos. Foram sempre valorizadas por conservar e realçar o sabor dos alimentos, para bebidas, para mascarar sabores e cheiros e para fins medicinais. 

Cravo-da-índia, cravinho
Syzygium aromatium (L.)
MUHNAC-JB6A659

CUIDAR | CURAR

A interação entre o património fármaco-cultural de cada sociedade e o saber global e erudito alterou-se ao longo da história, de acordo com diferentes contextos políticos, religiosos, económicos e culturais. A Matéria médica de Dioscórides (século I) assentava essencialmente na flora do Mediterrâneo e nas drogas orientais que já eram objeto de comércio no Império Romano. A expansão europeia, iniciada pelos portugueses no século XV, abriu o caminho à interação entre a medicina europeia e o conhecimento dos povos da África, Ásia e América. Nos séculos XIX e XX, o desenvolvimento de uma nova ordem jurídico-económica baseada no mercado originou a alienação desses povos dos resultados industriais, obtidos com os conhecimentos que eles próprios começaram por transmitir aos europeus.

 

 

 

 

Papoila-dormideira
Papaver Somniferm L.
MUHNAC-JB11B134


Problemas respiratórios 
O eucalipto, entre outras espécies, tem propriedades antissépticas e antibióticas, expetorantes, demulcentes (acalmam as membranas irritadas) e espasmolíticas (atuam no relaxamento dos músculos brônquicos).

Queimaduras, contusões e feridas
Plantas como o aloé são utilizadas para desinfetar a pele, reduzir o prurido, a vermelhidão e a dor, ajudar a conter hemorragias, estimular a remoção de produtos residuais ou auxiliar na cicatrização de golpes, feridas e escoriações. 

Ossos, artrite e reumatismo
O alívio de muitos sintomas, como a dor e a inflamação dos ossos, foi encontrado em certas plantas com propriedades analgésicas, anti-inflamatórias e antiespasmódicas, como o trevo-da-água ou a noz-vómica.

Alívio das dores
O cânhamo, a cânfora e a beladona são algumas plantas utilizadas pelas suas propriedades sedativas. Delas ainda se obtêm muitas das drogas úteis para o alívio das dores, como a morfina, extraída da papoila-dormideira. 

Problemas gastro-intestinais
A camomila, a malva ou a artemísia são utilizadas para acalmar cólicas, infeções, úlceras ou dores abdominais relacionadas com problemas do sistema digestivo.

CUIDAR | FRIEDRICH WELWITSCH

A coleção de objetos etnobotânicos, recolhidos por Friedrich Welwitsch (1806-1875) em Angola entre 1853 e 1860, testemunha a transmissão do conhecimento local aos europeus e faz parte do acervo do Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

O principal interesse de Welwitsch era de natureza botânica e taxonómica. Médico de formação, sofreu várias maleitas durante os anos que esteve em Angola, como febres, disenteria, escorbuto e chagas nas pernas. Não é de estranhar que tenha dado voz a muitos dos usos locais das plantas que estudou.

Welwitsch fez cerca de uma centena de referências a usos medicinais no opúsculo Sinopse explicativa (Lisboa, 1862) e em outras obras. São quatro os grupos de afeções mais referidas: 1) doenças gastro-intestinais, diarreia e disenteria; 2) feridas, úlceras e mordeduras de cobras; 3) malária e 4) tónicos, estomáquicos e estimulantes.

CUIDAR | CURANDEIRO

Apesar de corresponderem a mundos totalmente separados em termos de enquadramento cultural, conceptual e social, os curandeiros sempre foram uma fonte privilegiada de informação para a ciência ocidental. 

Nas sociedades tradicionais africanas, o curandeiro desempenha um papel fulcral no equilíbrio e coesão das comunidades. A sua atuação é focada no diagnóstico e cura de doenças, na adivinhação sedimentada em conceções mágico-religiosas.

Investido de poderes extraordinários que a proteção de espíritos ancestrais reforça, o curandeiro pode também atuar com o objetivo de repor a ordem social. Através do uso do seu equipamento, ele detém a capacidade de interpretar aspetos da vida só a si revelados. Parte da sabedoria do curandeiro é o resultado da transmissão direta de conhecimento entre curandeiros mais velhos e aprendizes, em permanente evolução.

Esta prática é do domínio do sagrado e exercida com base em todo um instrumental de igual valor, composto por recursos naturais que o curandeiro tem à sua disposição na fauna e flora locais.

Este material constitui um vocabulário de formas e significados complexos que só o curandeiro, imbuído de experiência e conhecimento excecionais, pode “ler” e descodificar. Exerce assim uma função de mediação entre o curandeiro e aquele que decide consultá-lo, procurando reverter, pela cura, uma situação de desordem que pode envolver doença, morte, azar, desgraça, infertilidade ou impotência. 

Na exposição podemos ver o instrumental do curandeiro Artur Murimo Mafumo, Ñanga da Matola, trazido para Portugal pela Missão Antropológica de Moçambique em 1956. Joaquim Santos Júnior (1901-1990), chefe da Missão, conheceu-o quando Mafumo se encontrava preso, e todo o seu instrumental apreendido pelas autoridades coloniais. Através da conversa estabelecida, foi possível recolher, não apenas os instrumentos e as mezinhas, mas também os seus receituários, anotados nos manuscritos de Santos Júnior.

 

 

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