Plantas e Povos | Núcleo TRANSCENDER

Desde sempre existe a crença que a Terra e o Céu se encontram estreitamente unidos e subordinados à vontade de entidades superiores e divinas. Os fenómenos terrestres, abstratos ou concretos, encontram correspondência num plano celeste, transcendente e invisível. A Natureza, manifestação terrena da esfera divina e símbolo de vitalidade, fertilidade e renovação, é venerada e objeto de culto.

As plantas, fonte de alimento, proteção e cura, ocupam um lugar central nos sistemas de crenças tradicionais em todas as geografias. Foram e ainda são poderosos mediadores entre a doença e a saúde, entre a humanidade e o divino, entre a morte e a vida eterna. Nas suas mais variadas formas, são utilizadas com o intuito de purificar e contatar com o Sagrado, despertando autoconhecimento e consciência espiritual.

Na busca de comunicação, encontro e comunhão com o Divino, a humanidade desenvolveu formas de expressão artística: a pintura, a escultura e a música. As figurações pictóricas e os sons, dominados pelas temáticas naturalistas, são usados em cerimónias e espaços para garantir proteção e sobrevivência, transmitir emoções e imortalizar factos, pessoas e momentos.

TRANSCENDER | ELEVAR

Em todas as civilizações e religiões, as plantas mais belas, robustas, raras ou úteis, são consideradas sagradas. São veneradas em cerimónias e consumidas, nos seus mais variados estados, para comunicar com o mundo celeste. Nas cosmogonias pré-modernas, nas mitologias clássicas, nos panteões politeístas e nas religiões monoteístas, transformam-se em símbolos e arquétipos de atos divinos e de muitas aspirações humanas.

As propriedades psicotrópicas e alucinogénias de muitas plantas possibilitam, desde sempre, o alcance de estados cognitivos alterados. Ingeridas, inaladas, fumadas, mascadas, são estimulantes, depressoras ou perturbadoras, permitindo, durante rituais e cerimónias conduzidas por feiticeiros e curandeiros, numa estreita relação entre medicina e magia, transcender o mundo terrestre, estabelecer contacto com os antepassados, adquirir robustez física e sexual. O tabaco (Nicotiana tabacum), a «erva-santa» descoberta por Cristóvão Colombo em 1492, era usado pelos índios americanos para estimular e vivenciar transes místicos.

A descoberta de Novos Mundos, nos séculos XV e XVI, potencia a entrada, nas sociedades ocidentais, de numerosas plantas, tradicionalmente usadas pelas sociedades asiáticas e americanas com fins mágico-religiosos e de recreação. O chá, o cacau e o café, consumidos localmente em rituais iniciáticos e com finalidades terapêuticas, irrompem, nessa época, de forma fulgurante, nas dietas e sociabilidades alimentares europeias.

Máscara
Moçambique, Planalto de Mueda, 1946
Missão Antropológica de Moçambique, 4ª Campanha
IICT-IMM-608/05

 


TRANSCENDER | TOCAR

É difícil precisar ao certo quando e onde surgiram os primeiros instrumentos musicais, mas sabe-se que são muito antigos. Nos primórdios, a sua construção serviu para imitar os sons do mundo natural, como o vento e o trovão, o canto dos pássaros e até o rugido das feras, como complemento aos ritmos do bater das mãos e dos pés.

Os primeiros foram chocalhos, apitos e tambores, feitos com materiais vegetais, animais e minerais retirados da Natureza. Eram utilizados para comunicação à distância e em rituais religiosos, como forma de transcendência e diálogo com o sagrado. Progressivamente, surgem formas mais elaboradas de aproveitamento das madeiras e das fibras das plantas para a construção de instrumentos mais complexos.

 

 

 

 

 

Trombeta - Lipenga
Moçambique, Cobué, 1946
Missão Antropológica de Miçambique, 4ª Campanha
IICT-MAM-60441/01

 

 

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