Hotel de Insetos instalado no Jardim Botânico de Lisboa

O Jardim Botânico de Lisboa tem agora um novo hotel, mas não é para hospedar quem nos visita, mas sim para acolher abelhas solitárias que andam por Lisboa e precisam de um abrigo para nidificar.

Fabiana Esposito, doutorada em Botânica e Biologia Evolutiva e Roberto A. Keller, Curador da Coleção de Insetos do MUHNAC-ULisboa

A ideia não é pioneira, mas no Jardim Botânico de Lisboa envolveu a colaboração de uma equipa multidisciplinar: curador, investigadores, jardineiro, Núcleo de Exposições e Educação. A investigação foi da responsabilidade de Roberto A. Keller, doutorado em entomologia e Curador da coleção de Insetos do MUHNAC-ULisboa e da investigadora Fabiana Esposito.

«Este tipo de projeto de Hotéis de Insetos começou a ficar muito popular noutros jardins botânicos e noutros museus de outras cidades da Europa e achamos que para nós também era importante oferecer algo semelhante aqui em Lisboa», explica o curador.

Para isso, Roberto A. Keller contou com a ajuda preciosa de Fabiana Esposito, doutorada em Botânica e Biologia Evolutiva a realizar um estágio no MUHNAC. Esta investigadora italiana desde que chegou a Lisboa há 5 anos que mantém uma relação com o MUHNAC, realizando em paralelo um pós-doutoramento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Fabiana Esposito e Roberto A. Keller

Especialista em insetos, Fabiana conta como se envolveu. «Dei o meu contributo com base naquilo que são as minhas experiências de estudo sobre as interações entre os polinizadores e as plantas. É a minha área de investigação. O meu próximo projeto na Bélgica vai ser sobre as abelhas urbanas e o uso de pesticidas nas cidades».

Mas em Lisboa, os investigadores começaram por estudar o tipo de materiais a usar para construir o novo hotel. «Contactamos com pessoas em Portugal que já tinham trabalhado com esse tipo de projetos antes, porque uma coisa importante é o tipo de espécies e o tipo de condições que se têm de criar, que têm de ser muito particulares ao tipo de habitantes que existe em cada país», explica Roberto A. Keller e exemplifica. «Um hotel de abelhas no norte da Europa vai ser diferente porque tem espécies diferentes. Então fizemos contactos com entomologistas portugueses Andreia Albernaz Valente e Albano Soares que há vários anos estudam quais são as melhores condições e quais os tipos de espécies que podemos esperar».

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, abelhas não são apenas aquelas que vivem em colónicas e produzem mel – as melíferas. Pelo contrário, existe uma panóplia de abelhas essenciais para a polinização, para a agricultura e consequentemente para a produção de alimentos, que vivem sós e desprotegidas – são as solitárias.

«São centenas de espécies que estão divididas em grupos grandes. Por exemplo, espécies que são cortadoras de folhas, que são abelhas que coletam pedaços de folhas para os seus ninhos, mas também polinizam e transportam o néctar. Há espécies carpinteiras que são aquelas que constroem buracos em pedaços de madeira para fazerem o ninho. Há espécies que são muito pequenas e que nem parecem abelhas porque são muito diferentes do que estamos habituados. Portanto são centenas de espécies que fazem parte de vários grupos e que têm distintos comportamentos, mas que também polinizam tipos de flores distintos», explica o entomologista.

Fabiana Esposito acrescenta que em «Portugal existem cerca de 750 espécies de abelhas diferentes. Há uma grande variedade e espero que algumas possam colonizar algumas das seções do Hotel de Insetos. Uma coisa muito interessante é que as abelhas solitárias, que vão provavelmente viver neste hotel, são muito eficazes na polinização e talvez mais eficazes que as abelhas do mel».

Daniel Crespo, Jardineiro

Mas afinal como funciona este hotel? À semelhança de um hotel comum, aqui temos vários pisos, cada um com secções onde se encontram diferentes materiais, escolhidos com base no estudo previamente realizado pelos investigadores.

A realização do projeto envolveu vários serviços do MUHNAC e a construção ficou a cargo do jardineiro Daniel Crespo, que em colaboração com o Roberto e a Fabiana, preparou cada quarto a preceito. «O meu envolvimento foi preparar os materiais para se colocar dentro do Hotel», explica o jardineiro e acrescenta. «Disseram-me quais os melhores materiais e nos troncos tivemos de fazer os furos, as madeiras não podiam ter aparas. Tivemos que seguir alguns critérios. Todos os materiais foram recolhidos do Jardim ou reaproveitados, inclusive os tijolos que lá estão foram reutilizados».

Buracos, furos, canas de bambu, tijolos, pinhas, entre outros, são os materiais que compõem cada secção, pensada de acordo com a necessidade das abelhas solitárias. «Na parte mais alta do Hotel temos o bambu cortado e tem de ter um comprimento específico para criar tuneis para as abelhas, e têm tamanhos diferentes com buracos maiores e mais pequenos, conforme o tipo de abelhas que podem ficar hospedadas. Depois temos o barro com buraquinhos para serem usados como abrigo para as abelhas. Temos a palha com barros que são para as crisopídeos e também para as joaninhas. As pinhas para as joaninhas. Pequenos troncos de madeira que são para os insetos xilófagos, cuja larva se alimenta da madeira morta», explica Fabiana Esposito.

Apesar da penthouse, ou parte superior do Hotel, estar pensada para as abelhas, que para já «no Inverno andam a recolher o material necessário, o néctar, as reservas para os ovos», a prazo existem formas de monitorizar o Hotel para saber quem ocupou cada “quarto”, como explica a investigadora.

«Podemos distinguir as diferentes espécies que ocupam os diferentes tuneis de bambu através da forma como as abelhas fecham os ninhos, porque em cada túnel podem por mais ovos, o néctar e no fim fecham. E a maneira como fecham - que pode ser através da saliva, com barros, com substâncias diferentes - antes do fim da primavera permite-nos saber que tipo de espécies colonizaram este hotel».

Mas o Hotel de Insetos tem uma dupla função. Para além de servir de albergue para as abelhas solitárias nidificarem, tem como função dar a conhecer ao público a importância destes insetos para a manutenção dos ecossistemas e biodiversidade. Para isso, e porque não há um hotel sem animação, Raquel Barata, Coordenadora do Núcleo de Exposições e Educação, explica o programa definido para dar a conhecer o nosso hotel.

«A atividade tem dois grandes objetivos. O primeiro é reconhecer os polinizadores e saber distinguir abelhas de moscas, de vespas e eventualmente até as identificar num percurso ao longo do jardim e tentar perceber o que estamos a ver. E depois, dentro do grupo das abelhas perceber que há as abelhas do mel (melíferas) e as abelhas solitárias e que o nosso hotel foi preparado especificamente para as abelhas solitárias. E depois perceber que existem diferentes espécies em Lisboa e em particular, eventualmente no Jardim, solitárias e que podem vir a ser as nossas habitantes do Hotel».

Com atividades preparadas para jovens a partir dos 12 anos e para grupos escolares do 7º ao 12º ano a partir do próximo ano letivo, estas preveem um grande ensinamento – se houver um tipo de abelha que desapareça é possível que um tipo de planta desapareça. «Exatamente, se a especialização for de facto assim tão grande sim, e vice-versa. Se a planta desaparecer a abelha também pode desaparecer», afirma Raquel Barata, que é também botânica.

«No fim, o objetivo é percebermos que a diversidade de insetos é muito importante, mas que a diversidade de abelhas e, nomeadamente, de abelhas solitárias, é extraordinariamente importante porque estas abelhas são muito especializadas num determinado tipo de planta. Portanto, para a polinização das diversas espécies de plantas alimentares é essencial o papel das abelhas solitárias».

Para quem visita o Jardim Botânico de Lisboa poderá encontrar o Hotel de Insetos instalado no meio do arvoredo logo ao lado do anfiteatro. Mas a Universidade de Lisboa tem ainda outro Hotel de Insetos instalado no Jardim Botânico Tropical, em Belém, do lado direito antes de chegar ao arco do jardim de Macau.

Por Lúcia Vinheiras Alves
 
 
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