MUHNAC quer ouvir a voz das comunidades de origem do património colonial existente no Museu

Museu promove atividades de inclusão e cocriação de conteúdos sobre coleções científicas recolhidas em contexto colonial.

Ivana Mancabú, funcionária pública na Guiné Bissau © MUHNAC-ULisboa

«Gostei muito da experiência, do facto de me recordar do meu país, faz-me recordar as tradições da Guiné-Bissau, porque uma imagem fala por si. É uma exposição muito bonita e dá para interpretar diferentes etnias da Guiné Bissau», conta Ivana Mancabú, depois de uma visita à exposição Moranças – Habitats Tradicionais da Guiné Bissau, que está patente no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC-ULisboa).

Ivana Mancabú, tem 44 anos e está em Portugal há dois anos. Chegou pouco antes da pandemia COVID-19. Esta funcionária pública da Guiné Bissau veio através de uma Junta Médica para tratar problemas de coluna, mas não voltou. Com o apoio do Serviço Jesuíta aos Refugiados de Portugal (da sigla em inglês, JRS) integrou o curso “Cuidar sem Fronteiras” e, apesar de contar com 18 anos de experiência na área de apoio social no seu país, está agora dotada de certificação profissional em Portugal enquanto cuidadora informal e encontra-se ativamente à procura de emprego.

A visita que Ivana fez ao Museu, no dia 12 de dezembro, integra-se no projeto que o MUHNAC tem em curso desde 2019 (e que surgiu no âmbito do Consórcio PRISC – Portuguese Research Infrastructure of Scientific Collections) de promoção de «inclusão social de migrantes e comunidades racializadas através de coleções científicas», explica Catarina Simões, historiadora do MUHNAC, envolvida no projeto.

Com a integração do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT) na Universidade de Lisboa, assim como das suas coleções científicas no MUHNAC, o Museu passou a possuir um acervo de referência no que toca a objetos recolhidos no âmbito de missões científicas coloniais.

«Muitas das coleções do museu incluem fotografias e objetos que representam ou que estão associados a culturas africanas e que foram recolhidos em missões científicas coloniais, nomeadamente a Cabo Verde, à Guiné-Bissau, a Moçambique e a Angola», explica Catarina Simões.

Ivana esteve o Museu integrada numa visita – resultante da colaboração entre o MUHNAC e o JRS - de um grupo de sete mulheres de cinco nacionalidades (Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Serra Leoa, Angola e São Tomé e Príncipe) à exposição Moranças – Habitats Tradicionais da Guiné Bissau.

Catarina Mateus, comissária da exposição e curadora da coleção de fotografia do MUHNAC-ULisboa explica que «esta parceria promove, por um lado, a integração dos utentes em atividades culturais, de forma a poderem conhecer melhor o país de acolhimento e, por outro, representa um pequeno passo do Museu na promoção de atividades, onde se pretende ouvir a voz das comunidades de origem do património colonial existente no Museu, criando sinergias e oportunidades de coexistência de um discurso mais plural e inclusivo».

Neste sentido, a atividade «teve como principal objetivo apresentar esta exposição às visitantes e desafiá-las a falar e escrever breves textos sobre as imagens que mais lhes despertaram a atenção», explica Ana Godinho, curadora assistente das coleções de arqueologia e etnografia do IICT. Depois foi-lhes pedido que colocassem post-its (cada cor correspondente a uma nacionalidade) nas imagens e as visitantes «aderiram com bastante entusiasmo e, apesar, das diferentes nacionalidades, conseguiram fazer paralelismos com as suas culturas. Através de post´its as visitantes colaram, junto às fotografias, as suas expressões através de histórias, sentimentos, os próprios significados e nomes (para o que observaram) na sua própria língua ou dialeto».

Uma atividade com um duplo objetivo – o da cocriação de conteúdos com estas comunidades sobre as coleções. Se por um lado, a ideia é «que o Museu se torne num espaço mais inclusivo sob o ponto de vista social, por outro lado, pretende-se aumentar o conhecimento sobre as próprias coleções, na medida em que tal como verificámos nesta atividade, muitas vezes os contributos destas pessoas permitem uma muito melhor contextualização dos objetos e fotografias em exposição», afirma Catarina Simões.

 

E Ivana Mancabú é testemunha desta cocriação. «Na visita vi algumas etnias da Guiné-Bissau em imagens e comecei logo a fazer interpretações de algumas das imagens que vi no Museu, como por exemplo, vi da etnia Mancanha (que é Brames), da Papel, da Manjaca, vi também da Balanta. Havia imagens diferentes no Museu. Eram imagens das moranças».

Apesar desta ser a primeira vez que Ivana visita o MUHNAC, esta não foi a primeira vez que percebeu que o mesmo guardava objetos que remetiam para o seu país. «Quando cheguei em 2019, andava a fazer limpeza na zona do Príncipe Real e passei e vi aquela imagem (da exposição das Moranças na fachada do Museu) e perguntei logo ao senhor com quem trabalhava que edifício era aquele. Ele disse-me que ali era o Museu Nacional. Mas nunca entrei, esta foi a primeira vez que entrei no MUHNAC».

Mas, certamente, não será a última. Até porque o Museu está já a preparar, no âmbito do mesmo projeto de inclusão e cocriação de conteúdos, novas atividades: uma na exposição Plantas e Povos e outra no Jardim Botânico Tropical… e a Ivana está certamente convidada a participar!

 

Texto de Lúcia Vinheiras Alves