Sentir a Terra II

Exposição da artista plástica Graça Pereira Coutinho

Quando: 
3 de Dezembro de 2021 a 16 de Janeiro de 2022
Onde: 

Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência 

A vida em mim esgota-se a obra artística exalta-se 

 

A Exposição Sentir a Terra II de Graça Pereira Coutinho resulta de uma cumplicidade da artista consigo mesma e de um sentimento de procura de reconciliação com a Natureza.  É uma demarcação clara de território artístico, onde o Laboratório de Química Analítica se transforma num grande herbário em homenagem ao seu tio bisavô, António Xavier Pereira Coutinho.

A formação de herbários iniciou-se no século XVI em Itália, como colecções de plantas secas e cosidas em papel. “As coleções de plantas vasculares do herbário LISU totalizam cerca de 120.000 folhas de herbário. As duas principais coleções são o Herbário Português do Professor António Xavier Pereira Coutinho e o Herbário Geral. O Herbário Português é uma coleção de referências que inclui a coleção de A.X. Pereira Coutinho (1851-1939). Esta coleção iniciou-se com os espécimes recolhidos no âmbito da publicação da Flora de Portugal (1913, a 1a edição e 1939, a 2a) e tem sido continuada desde então por outros botânicos. Contém cerca de 31.000 exemplares de espécies da flora de Portugal continental.”[1]

Graça Pereira Coutinho ao metamorfosear a sala num herbário, numa espécie de labirinto, no qual ao entrarmos tal como Alice no País das Maravilhas ficamos pequenos, remete-nos para um mundo de antagonismos do espaço-tempo. Nesta instalação podemos sentir a Natureza e permanecer. Construída em tule cozido em quadrados preenchidos com palha, numa repetição intencional onde a multiplicação é valorizada pela permanência do gesto. Reflete-se num espaço interior onde a possível inutilidade dos materiais ganha expressão e como nos diz a Graça, “no fim nós somos todos cinza ou palha.” A sistematização e a repetição obsessiva remetem-nos para o trabalho dos botânicos, dos cientistas.

A artista com a exposição não só pretende respeitar o espaço, mas interagir com ele. Entrega os seus despojos de viagens num abrigo, e faz do Laboratório de Química Analítica a sua casa, “a casa, o porão, a terra profunda, encontram uma totalidade pela profundidade. A casa transformou-se num ser da natureza. Está solidária com a montanha e as águas que trabalham a terra.”[2] Memórias de vistas com bocadinhos de palhas e de plantas, expondo a sua autonomia de prática artística num campo restrito de sentir. Num método próprio de um certo alheamento do real, legitimado pela sua intuição, saber, procura e recolha. Colecionar fez sempre parte do trabalho da Graça Pereira Coutinho.

Pretende-se assim que neste lugar, a memória, a imaginação, o diluir das fronteiras dos sentidos e o silêncio, se preservem. “O facto de os artistas contemporâneos estarem preocupados com o silêncio (e, portanto, com uma certa extensão do inefável) deve ser compreendido, do ponto de vista histórico, como uma consequência do mito contemporâneo dominante do ‘carácter absoluto’ da arte. O valor que se atribui ao silêncio não aparece em virtude da natureza da arte, mas deriva da atribuição contemporânea de algumas qualidades ‘absolutas’ ao objecto de arte e à actividade do artista.”[3] A importância da escolha e da valorização dos materiais, leva Graça Pereira Coutinho a capturar o silêncio e também a partir da sua própria imagem, como se pode ver nas duas fotografias expostas, a usa-lo em beneficio da criação artística.

A exposição lida com o reposicionamento da identidade e da reavaliação do percurso artístico de Graça Pereira Coutinho, onde se constrói a ideia da paisagem, da paisagem já muito analisada, interpretada, com um plano pré-concebido, mas com um grande campo de flexibilidade na instalação e na relação com o espaço. “Os braços livres, o coração fechando e abrindo selvagemente, mas o rosto claro e sereno sob o sol. E sabendo principalmente que a terra em baixo dos pés era tão profunda e tão secreta que não havia a temer a invasão do entendimento dissolvendo seu mistério. Tinha uma qualidade de glória esta sensação.”[4] Numa partilha prévia na logica do absurdo a exposição também ao evocar a Natureza  numa intrusão externa de apropriação, é nos devolvida, porque tem a ver connosco e somos nós.

 

Sofia Marçal

 

Estão expostos 2 exemplares (fac-simile) da Coleção de A.X. Pereira Coutinho:

Orobanche insolita, Herbário LISU, ULisboa-MUHNAC-LISU34593P ©ULisboa/MUHNAC (fac-simile). 

Castanea sativa, Herbário LISU, ULisboa-MUHNAC-LISU10323P ©ULisboa/MUHNAC (fac-simile).

 




[1] Site do museu.

[2] Gaston Bachelard, in: A Poética do Espaço, p.212.

[3] Susan Sotang, in: A Estética do Silêncio, A Vontade Radical, p.37.

[4]  Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p.23.

 

Curadoria: Sofia Marçal 

Inauguração: 2 dezembro, 17h00 às 20h00 

Exposição de Arte e Ciência