Tudo é Semente

Exposição do artista plástico Rubens Matuck

Quando: 
4 de Novembro de 2021 a 28 de Novembro de 2021
Onde: 

Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência 

Tudo é semente, tudo é escultura

Na exposição Tudo é Semente do artista plástico Rubens Matuck, os trabalhos estão inseridos num contexto museal e dispostos como realidade tangível com identidade própria de objetos artísticos e não científicos. A exposição é composta pela singular combinação de elementos da natureza, sementes, que se traduzem numa ideia expositiva que não pretende a representação da sistematização científica, nem apresentar informações e dados sobre os espécimes aqui apresentados.

Citando o artista. “Esta exposição é um estudo sobre escultura contemporânea, com referências a escultores que eu gosto. A influência do construtivismo russo, de Vladimir Tatlin, de Aleksandr Rodchenko, de El Lissitzky e de Naum Gabo. Aprofundo a função da madeira, a história cultural da madeira, da árvore.” A árvore como elemento unificador da terra e do céu, lembramo-nos da Coluna Infinita de Constantin Brancusi.

Por sua vez, o espaço estéril e puro desde Laboratório de Química Analítica foi contaminado pela materialidade da Natureza com as suas sementes e pelas esculturas de Rubens Matuck. Citando o artista, “a exposição é praticamente dedicada ao Brasil, Brasil com a matéria prima e como inspiração, na sua tradição muito rica e muito profunda.” Foram colocados na exposição alguns espécimes da coleção de Botânica do Jardim Botânico de Lisboa, Jardim Botânico Tropical e Banco de Sementes A.L. Belo Correia, com a intenção de se criar um diálogo com os objetos artísticos expostos.

O espaço do laboratório não é mais percebido como hiato do tempo, mas como espaço real que contem peças de arte. “A obra de arte é uma força social que cria dois grupos antagônicos, que separa e seleciona a imensa multidão em dois diferentes tipos de homens. Qual é o princípio diferenciador dessas duas castas? Todas as obras de arte são divergentes, alguns gostam, outras não; alguns gostam menos, outros gostam mais. Essa dissociação não tem caráter orgânico, não obedece a um princípio.”[1] Essas sementes, estas esculturas têm uma presença para além do seu significado,  tornarem-se objetos de arte.

A pesquisa efetuada pelo Rubens Matuck enquanto colecionista aproxima-se do papel do investigador como veículo epistemológico. Parceiro na formação de um conhecimento, como o colecionismo praticado pelo artista Mark Dion, processam o acumular, trabalham os veículos que dão legitimidade ao sistema científico e ao artístico, numa apropriação mesmo por vezes efémera e ingénua. “A fantasmagoria acabou de ser extraída da natureza. Todos os materiais com que a alma se entupiu diferenciaram-se, ordenaram-se, harmonizaram-se e sofrem essa idealização forçada, que é o resultado de uma percepção infantil, quer dizer, de uma percepção aguda, mágica à força de ingenuidade!” [2]

“O ateliê de Rubens Matuck reúne um enorme acervo de sementes recolhidas em suas notáveis viagens, sementes voadoras, flutuantes, giratórias, perfurantes e tantas outras marcas características das sementes que contem nelas próprias as estratégias para se tornarem árvores um dia. (…). É a semente que dita ao vento aonde e como levá-la. É a semente que escolhe o pássaro ou a brisa que a vai carregar para o germinadouro. É a semente que determina quais vizinhas- árvores quer ter. Seu desenho é a prova de sua vontade de viver e crescer. Ao mesmo tempo que é uma grande estrategista, toda semente também é uma promessa, a narrativa de um futuro, a garantia de toda e qualquer esperança se deposita na semente."[3] A experiência das expedições, do mapeamento dos viajantes das ciências naturais contamina as práticas artísticas de Rubens Matuck que investe no retorno ao lugar à experiência quotidiana.

Esta exposição é uma história de vida, uma materialização de memórias. Exposição do espaço, ao pensarmos nas viagens, caminhadas, passeios que o Rubens Matuck fez, e exposição do tempo, tempo da sua experiência, da sua aprendizagem, do seu percurso artístico, aqui concretizados nestes trabalhos escultóricos.

 

Ó Alma

Ó Alma, se o insensato disser

Que a alma se desintegra com o corpo,

E o que se vai, não volta mais,

Responde-lhe que as flores também passam,

Mas as sementes permanecem.

Assim é a essência da existência.[4]

 

 

 

Sofia Marçal




[1] Ortega e Gasset, in:  La Deshumanización del Arte, pp.343-355.

[2] Charles Baudelair, in: O Pintor da Vida Moderna, pp.22-23

[3] Norval Baitello Junior, Semente é a expressão da vontade da vida.

[4] Khalil Gibran (1883-1931).  Filósofo, escritor, poeta, ensaísta e pintor libanês.

 

 

Curadoria: Sofia Marçal

Inauguração 3 de novembro, 17h00 às 20h00

Exposição de Arte e Ciência