(2)000 & Uivo: spring-field 2.7e-1
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Still live
A exposição (2)000 & Uivo: spring-field 2.7e-1 de André Sier reúne uma seleção de trabalhos recentes; instalações, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos, e jogos da série wolfanddotcom. 2.7e. “O cidadão de nossa líquida sociedade moderna — e seus atuais sucessores são obrigados a amarrar um ao outro, por iniciativa, habilidades e dedicação próprias, os laços que porventura pretendam usar com o restante da humanidade. Desligados, precisam de se conectar... Nenhuma das conexões que venham a preencher a lacuna deixada pelos vínculos ausentes ou obsoletos tem, contudo, a garantia da permanência.”[1] A ideia de permanecia e de conexão estão presentes nos trabalhos aqui expostos.
As peças Bioscope#3 e Bioscope#2 vêm na sequência da peça desenvolvida em 2020 pelo André Sier na residência artística efetuada na V2_ em Roterdão e no Museu Zer0 no Algarve. A ideia destas peças é magnificar com sistemas digitais ou analógicos miniecossistemas bio-electrónicos. Nestas peças cada um dos recipientes vai ter um pequeno ecossistema com formigas retiradas de uma paisagem local portuguesa. Na Bioscope#3 os boiões estão ligados entre si para que as formigas possam ser alimentadas e respirarem. O conceito é construir uma peça com animais vivo, ao mesmo projetando na parede as suas sombras através de radiação laser. Na peça Bioscope#2 o mesmo conceito é utilizado num retroprojetor onde formigas se passeiam entre desenhos. O que o artista tem estado a estudar com estes meios refratários, em termos de vidro e de plástico com as projeções laser, aparecem projetados padrões harmónicos dinâmicos. Chamam-se bioscópios porque há uma fonte de luz que passa por um ecossistema vivo que é projetada na parede.
Podemos considerar estes trabalhos como naturezas-mortas, género principalmente associado à pintura, mas aqui na exposição ganha o seu espaço específico com outra leitura, outro médium, num terreno híbrido entre o desenho e o vídeo numa pertença contemporaneidade numa perspectiva mais abrangente.
O artista continua a trabalhar MetaPh na série de fotografias expostas, numa seleção de 7 sobre papel vegetal. André Sier aplica processos fractais em fotografias de pormenores de natureza e de animais. Com este trabalho o artista pretende sublinhar a beleza matemática da Natureza, inspirado no livro Computational beauty of nature de G.W. Flake.
Honey Krater é semelhante às peças dos bioscópios, foi a primeira peça executada pelo artista com sistemas biológicos. Esta peça tem um sistema degenerativo de pequenos textos que são alusivos ao labirinto do Minotauro, com mini vozes robóticas produzidas pelos textos aleatórios gerados e que fazem vibrar a superfície da água onde o laser vai refratar e projectar na parede, como numa cidade labiríntica. “A cidade de quem passa sem entrar é uma, é outra para quem é aprisionado e não sai mais dali; uma é a cidade à qual se chega pela primeira vez, outra é a que se abandona para nunca mais retornar.”[2]
A peça Wolfmachine já esteve exposta em duas exposições, é composta por matéria morta recolhida do jardim do museu e é complementada com plantas vivas. Os lasers vão recriar uma performance mecânica de hora a hora, sobre a presença dos lobos em Portugal no século XX.
Ark é uma interpretação bio-electrónica da Arca de Noé, tem a ver com um miniecossistema aquático que está dentro do bidon de óleo protegido por um pneu usado sobre um fogão disfuncional, um pêndulo e uma corrente. Os visitantes através da luz do laser conseguem ver no interior da peça objectos reciclados de paisagens protegidas. A completar a peça um plástico, uma corrente e uma ‘Nau Catrineta’ que vão criar movimento.
As peças Wolf-totems, são esculturas muito frágeis que o artista começou por fazer do projecto dos lobos, inspiradas no trabalho delicado de Giacometti.
(2)000, inspira-se no filme do Kubrick, 2001: Odisseia no Espaço. O uivo que vai buscar o lado não humano. A peça vai ser um vídeo jogo onde humanos podem tentar jogar contra um miniecossistema bio-eletrónico, que lhes criam obstáculos através de interfaces disfuncionais.
O tema é um pretexto para o artista questionar a nossa vivência na Terra, do ponto de vista animal, estético e pós-humano. “O amante da vida universal entra assim na multidão como num imenso reservatório de electricidade. Pode-se também compará-lo, ele mesmo, a um espelho tão imenso quanto esta multidão; a um caleidoscópio dotado de consciência, que, em cada um dos seus movimentos, representa a vida múltipla e a graça móvel de todos os seus elementos. É um eu insaciável do não-eu que, a cada instante, o manifesta e o exprime em imagens mais vivas do que a própria vida, sempre instável e fugidia.”[3] Citando André Sier, “Na era neon-paleolítica, os detritos humanos transformam-se num luxo jogável, onde coisas bio-electrónicas surtem na paisagem primaveril, um quase osso infra-estrutural na forma de uma arca radiada a verde, onde a fauna e a flora e os componentes eletrónicos que sobraram, emergem, submergem, e vão treinando e aprendendo, através de videojogos mitológicos, uma realidade zero, e aproveitam para vender uns passinhos pelo espaço.“
Sofia Marçal
[1]Zygmunt Bauman, in: Amor Líquido, Sobre a fragilidade dos laços humanos, p.9.
[2] Italo Calvino, in: As cidades invisíveis, p.53.
[3] Charles Baudelaire, in: O pintor da vida moderna, p.20.
Inauguração: 6 outubro, 17h00 às 20h00
Finissage: 4 novembro, 18h00 às 20h00