Almas de Cristal
Data
Local
Exposição da artista Sílvia Mariotti
A exposição pretende realçar o valor fundamental da natureza explorada como vetor de imagens e na sua dimensão generativa, evolutiva e ecológica. Novas formas possíveis de vida, reais ou imaginárias, aludem a novos e minúsculos ecossistemas - resultado da evolução da natureza contrariada pela mão do homem - presos no tempo, como fósseis recém-formados ou biomas inanimados.
Curadoria: Sofia Marçal
Inauguração: 16 janeiro, 18h00
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Paraíso perdido[1]
A exposição Almas de Cristal da artista italiana Sílvia Mariotti é o resultado da investigação que a artista vem a desenvolver em torno do conceito de Natureza, na sua forma mais pura e idealista, essa aproximação foi consolidada através da leitura de Ernst Haeckel.[2] Citando a artista “Haeckel, diz-nos que o material inorgânico também tem uma forma de inteligência é como se o material tivesse uma forma de vida própria.”[3] A artista também se inspirou nas Almas de Cristal deste filósofo na sua criação artística, como fosseis nos quais crescem cristais como material inorgânico. Apropriou-se do título do ensaio da investigadora italiana Laura Tripaldi.[4]
A leitura do livro O mundo submerso de J. G. Ballard, também estive na origem do pensamento crítico da artista para a elaboração da exposição. As cinco esculturas de cerâmica foram se construindo como se viessem do fundo do mar, como material inorgânico que se desenvolve e cresce e forma cristais formados através do sulfato de cobre, entre outros materiais. “Em suma, aqui não se pode nem mesmo falar de estilo, mas apenas de forma de exposição. É justamente aqui que ocorre a substituição do estilo pela exposição. O estilo é definido por uma relação criativa e substancial do discurso com o seu objeto, com o próprio falante e com o discurso de outrem, ele tende a fazer com que o material se conjugue organicamente com a linguagem e a linguagem com o material.”[5] Podemos dizer que estamos perante still live, o que está na génese destas naturezas-mortas é a sua representação como dispositivo, onde a valorização do materiais utilizados, como por exemplo o néon em duas das esculturas, acresce contemporaneidade a esta categoria estética, a artista deixa falar o material.
As esculturas expostas são representações de novas formas possíveis de vida, reais ou imaginárias, exploradas como vetor de imagens ambíguas e concebidas na sua dimensão generativa e evolutiva em termos das transformações do mundo vegetal que nos rodeia.
J. G. Ballard, no seu livro refere o mundo sob o ponto de vista apocalíptico no qual a Terra está totalmente coberta de água onde crescem animais estranhos. A artista imaginou esta visão vista de cima e construiu maquetes que posteriormente fotografou, dando a ideia de um mundo submerso, imaginou um ambiente futuro, onde a transformação do homem teria consequências apocalíticas. Duas dessas fotografias fazem parte da exposição e citando a artista, “desenvolvem-se através da sobreposição de elementos retirados da história e da literatura em que a natureza desempenha o papel principal. Através da fotografia e da instalação, crio sugestões e reflexões da imagem, contando mundos ambivalentes, que geram uma espécie de suspensão temporal e ao mesmo tempo, abrem novas interpretações.”
Dentro dos armários em frascos estão sementes do Jardim Botânico do museu, do Banco de Sementes, A.L. Belo-Correia.[6]
A exposição parte de lugares reais, onde Silvia Mariotti investiga contextos históricos e sociais, como nos diz, “passamos por paisagens disfuncionais ou estratificadas Boutade, por visões que surgem como explorações de abismos, transportados por correntes Drowning Light que se tornam abstrações Gauzy Green, atravessar a ciência e a biologia e perceber possíveis novas formas de vida, reais ou imaginárias, Pioneiros Submersos.”
“As almas são iguais por natureza;
Nos graus de perfeição, porém diferem:
Pelo discurso enquanto o homem pesquisa,
O anjo pela intuição longe penetra.
Maravilha não é que eu não recuse
O que bom para vós achou o Eterno,
E que, qual vós o converteis na vossa,”[7]
Como Milton, Baudelaire e tantos outros, a artista procura as almas de cristal que se foram propagando e constrói o seu Paraíso Artificial que não está perdido, pois a natureza e a arte encontram o seu lugar junto da ciência no Laboratório de Química Analítica.
Sofia Marçal
[1]Apropriação do título do livro de John Milton.
[2] Biólogo, naturalista, filósofo, médico, professor e artista alemão (1834-1919).
[3] Ernst Haeckel, Kristallseelen. Studienüber das anorganische Leben (Almas de cristal. Estudos da vida inorgânica).
[4] Laura Tripaldi, Menti parallele. Scoprire l’intelligenza dei materiali, effequ, 2020
[5] Mikhail Bakhtin, in: Questões de literatura e estética: a teoria do romance, p.173-174.
[6]O banco de sementes A.L. Belo Correia é o mais antigo banco de sementes de espécies autóctones em Portugal continental, conservando mais de 3.700 amostras de sementes, de 1.200 espécies (incluindo subespécies).
[7]John Milton, in: Paraíso perdido, p.169.