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Analysis of Beauty

Exposição de Arte e Ciência

Data

12 Julho - 2 Setembro 2025

Local

Museu

Exposição do artista Pedro Proença

A exposição consiste numa série vasta de aguarelas sobre papel que o artista tem vindo a fazer desde há 5 anos, inspiradas em temas “naturais”, e com referência à rica tradição da ilustração científica, sobretudo do século XVII ao início do século XIX. No entanto estas aguarelas não são, nem têm a pretensão de alguma cientificidade, e muitas vezes derivam para puros jogos com formas de origem vegetal e animal, tal como foi praticada nalgumas artes decorativas ou na “arte moderna” mais formalista. Podem também partir de catálogos pessoais de morfologias (que o artista metodicamente faz e coleciona), assumindo-se assim como variações, de algum modo “livres”, nas quais ecoam as referidas ilustrações.

Curadoria: Sofia Marçal

Inauguração: 11 de julho, 18h00

CONVITE

 

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Nesta exposição The Analysis of Beauty, Pedro Proença através dos seus desenhos de uma representação metafórica e simbólica, exalta o Universo, enquanto poética, enquanto linguagem figurada, metáfora para uma literalidade crua delicada sem artifício, despojada. O virtuosismo deste artista não nos deixa indiferente. “Frequentemente estranho, violento e excessivo, mas sempre poético, ele soube concentrar nos seus desenhos o sabor amargo ou capitoso do vinho da vida.”[1] Num contexto de expansão da temporalidade e da espacialidade a exposição habita a sala, em movimento, com gestos, pinceladas repetidos infinitivamente até à exaustão.  

Sofia Marçal

 

The Analysis of Beauty

Como tantos miúdos cresci fascinado pelas imagens de animais e plantas que encontrava nas margens das encilopédias, em colecções como Os Bichos e A Fauna, ou nalguns selos e revistas médicas. Não eram aparições iguais à natureza familiar da cidade/campo dos anos 60. Ou se tinham algo a ver surgiam com outra força. Só rivalisavam com as bandas desenhadas ou com o que eu imaginava ser a História de Arte, uma colecção de imagens na altura difícilmente acessível. Ignorava que não tardaria a ser um zoographos, um "pintor", literalmente, o que regista o vivo. Foi na pintura/desenho que encontrei essa apetite omnívoro de que é feita a beleza. Quando digo apetite, é literal. O elemento de devoração, de ansiedade de possuir as imagens transmuta-se na ansiedade (e na prática) de as fabricar, de as propagar. Uma fome de mais mundo (de outros mundos?), e de algum modo, de mais paraísos concretos.

É no tratado The Analysis is Beauty do pintor/gravador William Hogarth que a expressão desse movimento de beleza se reduz a algo tão simples como uma linha, um "s" alongado, um movimento dançante e rápido que encontramos na caligrafia da época, nos desenhos de Guardi, nas partituras de Bach e Mozart (entre outros), e mais tarde nos desenhos de Matisse, ou nas páginas manuscritas das matemáticas de Ramanujam inspiradas pela deusa Nigiri. É o arabesco, as figuras ornamentais (como na música): um tremer, fremer, fervilhar entre zonas vizinhas, uma actividade vital e comichosa.

No gesto da aguarela esta fome da planta pela movimento  (no fundo um querer ser animada, animalizada) faz-se absolutamente espontânea. Nos últimos 5 anos esse gesto tornou-se-me claro, maníaco e preciso. Ele vem já modulado, como se a linha contivesse o volume num golpe de magia. Trata-se aqui de uma arte combinatória (de Ramon Llull e Leibniz até à cibernética/IA). A representação funde-se na invenção. Se às vezes vou no sentido fotográfico, essa atenção dilui-se em explorações fantasiosas, na pulchritude vaga de que falava Kant: livre de conceitos, emancipada de referentes, erotizada e movediça. Diriamos que há nisto frívolidade… Ou será vitalidade?

Que mais ligações e referências chamar aqui? As das artes combinatórias no domínio artístico: Paul Klee, um pouco de Picasso, Ângelo de Sousa, o serialismo dos minimalistas e seus derivados. Mas também dois períodos da arte maravilhosos — a arte minóica, com suas figuras aquáticas, polposas, de côres vibrantes; e a tradição visual hindustânica (dita arte persa, mas também indiana), onde o prazer nos sacode (e isso é a des-alienação), o ornamento nos envolve, não como um extra, mas como o suco que sustênta a imanência. É isto apolítico? Antes pelo contrário: é uma militância pelo vivo, livre (irreprimível), enquadrado por uma visão que problematiza e integra as relações entre natural/social/artificial, numa perpectiva de hibridação/missegenação (um pouco cyborg), multissexuada (sem se fechar em espartilhos), interdependente (ó budismo!) e pelo fim de todas as formas de exploração e opressão onde quer que seja (Marx)

Termino com uma citação (uma afinidade) de Maria Filomena Molder, na introdução sua à Metamorfose das Plantas de Goethe: Tudo o que é aparece, mostrando-se e significando-se a si próprio, i. e., toma forma; o que atrai a atenção do observador é, na verdade, a multiplicidade das formas, as suas relações internas, as passagens onde se vislumbra a sua organização, a regra que une e permite as variações, fenómenos altamente significativos; as forças da alma por eles solicitadas reencontram objectivada uma experiência de automorfose, de formação própria, descobrindo, associados, na mais bela harmonia, o subjectivo e o objectivo.

Pedro Proença

 

[1] Charles Baudelaire, in: O pintor da vida moderna, p.16.