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Céu Vermelho

Exposição de Arte e Ciência

Data

28 Março - 6 Abril 2025

Local

Sala Branca Edmée Marques | Museu

Videoinstalação da artista visual Marina Thomé

Céu Vermelho é uma instalação artística que transita entre história, ciência e a experiência biográfica do cancro da mama vivenciada pela artista luso-brasileira Marina Thomé. A sua pesquisa foi realizada em abril nos Açores.

A obra explora o corpo marcado pelo cancro da mama como uma paisagem em constante transformação. Arquivos médicos fundem-se com memórias pessoais, criando um diálogo que convida a novas perspetivas sobre a dor, a beleza e a relação íntima com a natureza. Céu Vermelho entrelaça imagens científicas e desastres naturais para questionar os estigmas e traumas associados ao cancro da mama, revelando o corpo como um território simultaneamente de destruição e de reconstrução.

Com uma pesquisa abrangente, a videoinstalação revisita imagens da RTP Açores e d​o filme Erupção Vulcânica dos Capelinhos, Ilha do Faial (Raquel Soeiro de Brito, 1958), entre outras fontes de arquivo que incluem imagens médicas e oncológicas norte-americanas, ampliando o diálogo entre o registro histórico e a experiência pessoal.

Curadoria: Sofia Marçal

Inauguração: 27 de março, 18h00

CONVITE

 

PROGRAMA ASSOCIADO 

Visita orientada e conversa 
28 de março, 14h00
Mais informações aqui

 

 

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A criação artística enquanto ato de libertação

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência acolhe a vídeo-instalação Céu Vermelho da artista luso-brasileira Marina Thomé, anteriormente apresentada no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas,[1] agora na Sala Branca Edmée Marques[2] adaptada para construir um diálogo com a exposição Cuidar e Curar, mostra de objetos da coleção da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, depositados no Museu.

Céu Vermelho é uma instalação artística que transita entre história, ciência e a experiência biográfica do cancro da mama vivenciada pela artista. Citando Marina Thomé, “ao mergulhar nos arquivos em busca da coexistência humana com a imprevisibilidade, reformulo a minha vida após ter sido diagnosticada com cancro da mama. Ainda em tratamento, chego a Portugal, terra da minha avó, para um encontro íntimo com a finitude.” O olhar sobre o desconhecido, o infinito, a violência, o isolamento são conceitos inerentes a esta exposição e principalmente sobre o sofrimento da artista e a materialização desse sentimento, mas também de esperança e de luta, simbolicamente representado pelo néon vermelho que percorre a exposição.

A exposição valoriza o crescimento interior para se alcançar a paz e a serenidade. “No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física.”[3] A vídeo-instalação representa uma parte emocional do crescimento individual da artista, enquanto aceitação da sua doença, processo doloroso e sujeito a várias etapas. A apropriação da artista destes materiais de arquivo no seu processo de aceitação da doença, assim como na sua evolução, e aperfeiçoamento artístico, criaram esta vídeo-instalação.

A arte contemporânea, conquistou o seu lugar na história da arte, com os seus médios e memória, não se limita a representar a realidade exterior, mas sim dialogar e a questionar os cânones já estabelecidos. Esta exposição é a prova disso, onde o passado se encontra com o presente e a abordagem fílmica, cinematográfica apresentada em vários suportes, negatoscópio, projetor de slides, monitores, telas… com imagens dos Açores, fotografias, imagens de arquivo médico, intervenções sonoras e gráficas, constroem uma atmosfera que se insere num projeto que levita à volta da suspensão narrativa no contexto do género cinematográfico documental.

Numa televisão temos o testemunho de José Decq Mota, sobre o vulcão dos Capelinhos.[4] Conta-nos a história de seu pai, médico no Faial que registou a explosão do vulcão durante 13 meses. José acompanhou o pai muitas vezes nas suas visitas ao vulcão. Algumas das fotografias do pai encontram-se em cima da mesa ao lado de uma televisão com o vulcão em explosão.

Podemos visionar o vídeo Voice Over onde Marina Thomé se expõe e se retrata. “Talvez nos devêssemos limitar a dizer que o passado pode manter-se conservado na vida mental, mas não tem necessariamente de ser destruído. É sempre possível que mesmo na mente algumas ocorrências antigas – por regra ou como exceção – tenham sido de tal modo absorvidas ou mesmo apagadas que já nenhum processo as poderá reconstituir ou fazer reviver, ou que a conservação dependa no geral de condições favoráveis. É possível, mas sobre isso nada sabemos. Podemos apenas constatar que a conservação do passado na vida mental é mais a regra e menos uma exceção insólita.”[5] A ideia que Marina Thomé pretende transmitir, é de um passado presente, tal como a nossa memória. A relação das imagens mais íntimas e do seu significado ajudam-nos a pensar, a procurar também as nossas memórias e a construir a nossa introspeção.

Dentro das vitrines encontram-se duas televisões de estúdio com imagens filmadas com uma lente macro, são detalhes da natureza que nos remetem para imagens celulares, mas na verdade são imagens dos Açores, da sua natureza, instaladas no meio de instrumentos de medicina. Entre a ideia do microcosmo e do macrocosmo e como isso afeta a nossa perceção das imagens que ocultam toda a profundidade na superfície e procuram o espaço limitado do infinito. “Por isso mesmo, a distância do microcosmo ao macrocosmo pode ser imensa, mas não é infinita; os seres que aí residem podem ser numerosos, mas afinal poderíamos contá-los; e, consequentemente, as similitudes que, pelo jogo dos signos que elas exigem, apoiam-se sempre umas nas outras, não se arriscam mais a escapar indefinidamente.”[6] O caracter temporário passa a ser a o da inquirição, mas a vídeo-instalação, essa sim, é  intemporal.

Podemos ver no vídeo Alba, imagens de uma mergulhadora em apneia e encontrar beleza no infinito, na imensidão, “imensidão nasce de um corpo de impressões que não derivam realmente das informações do geógrafo. Não há necessidade de permanecer nos bosques para conhecer a impressão sempre um pouco ansiosa de que nos aprofundamos num mundo sem limite.”[7] A imensidão da temporalidade desta exposição remete-nos para intemporalidade da incerteza, do sofrimento, mas também de esperança. Para se ser pleno tem que se percorrer um caminho interior, de humildade, sofrimento e de aprendizagem. “Hoje, simplesmente motivado pelo desejo de estar num lugar célebre pela sua altura, subi ao monte mais alto desta região, que imerecidamente é chamado de Ventoso. Há muitos anos que eu tinha em mente faze-lo; (…) desde a minha infância vivi nesta região, sempre o tive ao meu alcance este monte que se vê de todos os lugares, Finalmente tive o impulso de fazer o que todos os dias me tinha comprometido.”[8] Marina Thomé desafia-se como pessoa e como artista, na sua procura incessante de novos estímulos que se materializam em vídeos-instalações, enquanto ato de libertação que floresce como o terrário exposto na sala.

 

Sofia Marçal

 

[1]A exposição foi apresentada de 28 de setembro a 3 de novembro de 2024. Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, Ribeira Grande, São Miguel. Açores.

[2]Branca Edmeé Marques, (1899-1986), cientista portuguesa na área de física e química. Doutorou-se  em 1935, na Universidade de Paris sob orientação de Marie Curie.

[3] Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p.36.

[4] O vulcão manteve-se em atividade por 13 meses, entre 27 de setembro de 1957 e 24 de outubro de 1958.

[5] Sigmund Freud, in: O mal-estar na civilização, p.19.

[6] Michel Foucault, In: As Palavras e as Coisas Uma arqueologia das ciências humanas, p.48

[7] Gaston Bachelard, in: A Poética do Espaço, p.317.

[8] Francesco Petrarca, in: Subida ao monte ventoso, p.35