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Ancestrais

Coluna da Diretora | Julho 2025

Talvez não tenham reparado, mas nos últimos seis meses algumas das nossas coleções estiveram ‘por conta’ do coletivo Tributo aos Ancestrais.

Efetivamente, entre Janeiro e Junho deste ano, o Tributo aos Ancestrais organizou duas visitas participadas por mês às coleções etnográficas e a xiloteca, ambas de origem colonial, que se encontram no Jardim Botânico Tropical (Palácio dos Condes da Calheta). Nessas visitas, o MUHNAC apenas abriu as portas. Eles fizeram tudo: trataram das inscrições, abriram gavetas e armários das reservas, selecionaram os artefactos, escolheram a narrativa, conduziram a roda de conversa e arrumaram tudo no fim.

Foi uma experiência única no nosso país.

Durante as 12 visitas, necessariamente com pouco público de cada vez, muitas mulheres, homens e crianças afrodescendentes e da diáspora dos países de origem tomaram pela primeira vez contacto com acervos relacionados com a sua identidade, história e património.

Todas as visitas foram diferentes.

Houve lembranças de infância, cheiros de terra e de chuva, memórias das avós e poemas tradicionais, tudo ativado pelos artefactos – uma amostra de madeira de Timor Lorosae, um instrumento musical de Moçambique, uma máscara da Guiné-Bissau ou uma flecha de Angola.

Também houve muita emoção, consternação, revolta e mil perguntas: Porque é que isto está aqui ‘escondido’ há tantos anos? Porque é que ninguém conhece? Vai ser repatriado aos países de origem? Quem decide?

Houve pessoas que vieram a uma visita e regressaram uma segunda e terceira vez.

Houve também profissionais de museus, interessados em práticas museológicas participadas e comunitárias. Houve muitos investigadores e estudantes de História, Museologia, Antropologia e outras disciplinas, curiosos pela abordagem e pelos processos das visitas. Houve cruzamentos com dois outros projetos comunitários do Museu na margem sul – ‘Heranças Vivas’ e ‘Arquivo em Movimento’.

Apesar de ainda termos de fazer, em conjunto, um balanço mais aprofundado, as visitas participadas do Tributo aos Ancestrais foram um tremendo sucesso.

Para o Museu, foi uma dádiva enorme.

Primeiro, porque permitiu concretizar uma componente importante do nosso Programa de Ressignificação e Reparação das coleções coloniais: não basta mostrar o património, é preciso dar voz às comunidades de proveniência. Segundo, permitiu alcançar públicos que habitualmente não nos visitam. Terceiro, permitiu dar acesso livre e incondicional a acervos que estão em reserva.

Tal como o fiz publicamente em outras ocasiões, o Museu está muito agradecido ao Aristóteles Kandimba, Margarida Semedo, Jéssica Bruno e Manuel Dias dos Santos pela iniciativa e, sobretudo, pela generosidade, pluralidade e inteligência com que conduziram as visitas.

Venham mais! E também outros coletivos!

O coletivo Tributo aos Ancestrais foi criado em 2017 e organiza cerimónias anuais, em Lagos e em Lisboa, de homenagem às pessoas escravizadas no tráfico transatlântico. Apesar de serem cerimónias comuns em tantos países, o Tributo aos Ancestrais são os únicos a fazê-lo em Portugal. São eventos muito comoventes, com música, flores, momentos de muita alegria e também de silêncio e memória.

O último desses eventos foi ontem, Domingo, 6 de Julho, no Cais das Colunas, em Lisboa.

O MUHNAC apoiou, bem como o Museu de Lisboa. Não é possível os museus – sobretudo aqueles com responsabilidades de contarem as histórias sociais, científicas e políticas das relações de Portugal com o mundo – ficarem à margem destas iniciativas importantíssimas da sociedade civil. E sendo o Tributo aos Ancestrais, a quem tanto devemos, a organizar, nem poderia ser de outra maneira.

Como dizia James Baldwin, “estamos todos presos na história e a história está presa em nós”.

A única maneira de nos libertarmos para entendermos o presente é através do conhecimento, da razão e da verdade. O património e a memória de um passado partilhado são os melhores instrumentos que temos para o fazer.

Como alguém me dizia nestes dias, não se trata de olhar para o passado com os olhos do presente, mas precisamente o contrário: olharmos juntos para o presente com os olhos do passado.

Para saber mais sobre as Visitas Participadas.

Para saber mais sobre o Tributo aos Ancestrais.

 

 

Marta Lourenço, Diretora
7 de Julho de 2025

PS Agradeço ao talentoso fotógrafo Alex Paganelli algumas das fotos.