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museu figueira da foz

Coluna da Diretora | março 2025

Imaginem que um museu descobria que tinha peças roubadas. O que deveria fazer? Primeiro, chamar a polícia, evidentemente, para que tentassem encontrar o proprietário. Depois, apoiar a investigação para perceber como foi possível isso acontecer. Depois, devolver a peça. Apesar de poder ser demorado, o processo é relativamente simples quando os proprietários são próximos, seja no tempo seja no espaço.

Quando a aquisição ou doação foi feita há dezenas de anos ou quando os proprietários são de outros países, ou até continentes, todo o processo se torna obviamente muito mais complicado.

Nestes casos, o que deve o museu fazer? Esconder as coisas debaixo do tapete à espera que se resolvam por si, ou mostrar ao público, de forma transparente, esses casos mais obscuros?

Por múltiplas razões – contextos históricos, práticas museológicas mais fluidas, quadros legais e éticos diferentes, convenções internacionais que entraram em vigor entretanto – os museus têm peças cuja legalidade pode e deve ser questionada, à luz dos contextos museológicos do passado.

O caso dos objetos adquiridos em contexto colonial é um caso particular deste problema mais geral. Sendo um caso particular, é ao mesmo tempo muito mais sensível e polarizador, chegando ao ponto de muitas pessoas pensarem que todos os objetos trazidos para países europeus em contexto de domínio colonial – aqui entendido em sentido lato, incluindo ocupações europeias – foram ‘roubados’. Por outro lado, alguns museus têm medo de ficar sem coleções em resultado de pedidos dos países de origem. Nenhuma das duas afirmações é verdade, mas as emoções estão à flor da pele.

Estamos bem conscientes desta questão. Todos os museus com coleções de origem colonial que conheço estão a desenvolver auditorias internas rigorosas às proveniências das suas coleções e aos contextos de recolha, frequentemente com a indispensável participação das comunidades de origem. Trata-se de um trabalho muito complexo e moroso, envolvendo fontes de arquivo em diferentes instituições e, até, diferentes países.

Um dos primeiros a mostrar resultados foi o Museu Santos Rocha, na Figueira da Foz, com a inauguração a semana passada da exposição temporária ‘Confrontar o Legado Colonial no Museu’, no âmbito da Conferência Internacional do Projeto TRANSMAT. Para além dos resultados da investigação histórica, que se encontram apresentados de forma inteligente e sem apagar as narrativas ‘tradicionais’, a exposição interpela de forma hábil os visitantes, convidando-os a participar com perguntas ou comentários.

A exposição é um exemplo para todos nós, que preservamos nos nossos museus, e em nome do público, evidências materiais de passados difíceis. Pode ser visitada até 31 de Outubro.

 

Marta Lourenço
16 Março 2025

 

Fotos: Ana Godinho e David Felismino

 

PS. Uma outra exposição que aborda os mesmos assuntos é a ‘Não Visitem a Sala Colonial’, no Museu de Lamego, com a colaboração da Escola Secundária Latino Coelho (sim, não são só os museus que têm coleções difíceis). E, claro, a nossa ‘O Impulso Fotográfico: (Des)Arrumar o Arquivo Colonial’, que pode ser visitada no MUHNAC.