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Coro Verde

Exposição de Arte e Ciência

Data

3 Outubro - 9 Novembro 2025

Local

Laboratório de Química Analítica | Museu

Exposição dos artistas Andrea Paz, Francisco Lourenço, Pablo Quiroga Devia, Paula König, Tiago Rocha Costa

Como um coro formado por múltiplas vozes que se harmonizam, esta exposição reúne obras de cinco artistas que, ao longo de um ano de trabalho individual e coletivo, refletiram sobre o significado cultural das aves exóticas que aprenderam a viver em liberdade nas cidades. É o caso dos periquitos-de-colar (Psittacula krameri) que, desde a década de 1970, são encontrados em números cada vez mais significativos em Lisboa, tornando-se parte da sua paisagem visual e sonora. Partindo desta espécie em particular, e de um interesse mais vasto pelas possibilidades de representação da natureza na contemporaneidade, a exposição explora questões centrais, como a coexistência entre espécies, a agência humana nos ecossistemas, os limites da domesticação, ou as migrações no contexto de uma economia global – narrativas multiespécies que desafiam a tradicional dicotomia entre natureza e cultura. 

Curadoria: Sofia Marçal

Inauguração: 2 de outubro, 18h00

CONVITE

 

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Psittacula kramerí

A narrativa da exposição Coro Verde apropria-se da particularidade dos periquitos-de-colar (Psittacula krameri)[1] viverem em Lisboa desde a década de 1970 e tornaram-se parte da sua paisagem visual e sonora. Os artistas; Andrea Paz, Francisco Lourenço, Pablo Quiroga Devia, Paula König e Tiago Rocha Costa, exploram a ligação da Natureza com a cidade numa visão contemporânea numa lógica representativa simbólica e metafórica que reflete sobre o significado cultural das aves exóticas que aprenderam a viver em  liberdade nas cidades.

Os artistas ocuparam o laboratório com os seus trabalhos, na hotte está a escultura de porcelana de Andrea Paz, citando a artista "Este trabalho reflete sobre a presença de Psittacula kramerí em Lisboa, traçando as suas estratégias de sobrevivência e as formas como se inscrevem na cidade. O seu comportamento alimentar que é muitas vezes mal interpretado como consumo indiscriminado de frutos, revela um gesto mais deliberado: rasgar a polpa apenas para chegar à semente, o núcleo do sustento. Este ato de desmembramento ressoa como violência e poesia, uma metáfora de persistência, de encontrar o que é essencial por baixo de camadas de distração. Nos seus ninhos, elas reúnem-se em grupos/famílias, sobrepondo corpos e materiais, incorporando tanto a comunidade como a sobrevivência em espaços precários.”

Francisco Lourenço apresenta três vídeos instalados subtilmente dentro dos armários. Citando o artista, “a campa do Periquito-de-colar é um local de passagem frequente para os animais da cidade, sobretudo para os que vieram de outros habitats. A terra em torno do corpo do Periquito-de-colar puxa para perto de si partes da cidade para que os animais em cativeiro consigam fazer a sua peregrinação. Os vídeos nesta exposição mostram a paisagem resultante destas visitas."

As esculturas de penas e leques de Pablo Quiroga Devia estão colocadas na parede. Citando o artista, "reconstruí asas, caudas e corpos , à semelhança do periquito-de-colar. Cada uma dessas figuras replica a silhueta do animal, mas as formas apresentam alterações na estrutura morfológica com partes de objetos. Determina-se  uma mutação da figura do pássaro, uma capacidade de ser maleável como organismo que resiste à arquitetura hostil das cidades, e que mesmo sendo parte da biodiversidade ibérica atual, se situa ainda como imaginário exótico dos pássaros ornamentais.”

No centro da sala, está a primeira parte da obra Schwarm [bando] de Paula König, que foi desenvolvida em colaboração com alunos da EAL e que consiste numa grelha de folhas DIN A4 coladas, onde um grande bando de periquitos-de-colar-verde levanta voo. No seu quotidiano, a artista move-se entre o seu atelier e a sala de artes da Escola. Entre estes dois locais encontra-se um dos principais pontos onde os periquitos dormem na cidade, perto da Universidade de Lisboa. Citando a artista, “ao passar de bicicleta, ouvia os seus cantos estridentes, como um pré-eco da exposição Coro Verde e como parte da minha prática artística, frequentemente baseada em colaboração, abri este processo e convidei os jovens que fazem parte do meu quotidiano a contribuir com um desenho. O que se torna visível na obra é uma variedade natural, dependendo da observação, da sensibilidade aos detalhes visuais das aves e do envolvimento pessoal naquele dia.” Um segundo elemento de Schwarm (Bando) é um desenho baseado numa fotografia tirada por Tiago Rocha Costa antes da exposição, antecedendo os encontros regulares em grupo para observar os periquitos: a cena retrata a interação de um periquito com aves nativas na selva urbana de betão e metal que escolheram para coexistir – um momento que capta a forma como, muitas vezes, os podemos observar quando olhamos para cima após ouvir o seu chamamento.

Tiago Rocha Costa também ocupa o centro do laboratório com três esculturas-pinturas que se impõem na sala como árvores, prédios ou postes de iluminação, apresentando vestígios de tinta e texturas transferidas de paredes e portas para tecido cru. Citando o artista, “seguindo uma lógica de acumulação que remete às próprias características das superfícies citadinas, é possível identificar, ao nível do olhar do espectador, anúncios de aves de estimação desaparecidas, como testemunhos da esperança e do luto associado a este tipo de perda. Já na parte superior, fora do alcance do espectador, abrem-se cavidades circulares que evocam ninhos, e que nos convidam a especular sobre a existência de uma comunidade livre e utópica, formada por sucessivas gerações de aves foragidas que aprenderam a viver na cidade à margem dos desejos e das projeções humanas. 

Na exposição ouve-se a vocalização de um periquito-de-colar (Psittacula krameri) pousado, sobre um fundo de breve conversa entre pessoas e movimento de carros.[2]Os artistas apropriaram-se desses aves, do seu som e materializaram-nas, posicionando-se entre a representação da Natureza e da estética o que nos leva para um pensamento da representação pictórica enquanto linguagem despojada, nos limites da apropriação “O mundo de uma obra de arte é ‘irreal’, no sentido real da palavra: é uma realidade fictícia. Mas é ‘irreal’ não porque seja inferior em relação à realidade existente, mas porque lhe é superior e qualitativamente ‘diferente’.”[3]

 

Sofia Marçal

 

[1] Ao longo das últimas duas décadas, estas aves multiplicaram-se e espalharam-se por Lisboa, deixando marcas invisíveis, mas inegáveis, no mapa da cidade com as suas rotas de voo e locais de repouso. A sua expansão não é apenas ecológica, mas também cartográfica, escrevendo uma história de adaptação e resistência num tecido urbano que não foi concebido para elas.

[2] Gravado no Jardim Botânico Tropical em janeiro de 2023. Pertence ao Banco de Som do Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

[3] Herbert Marcuse, in: A Dimensão Estética, p.53.

 

PROGRAMA ASSOCIADO

29 de outubro, 18h30
Conversa: Diálogos intersespécies nos limites da cidade
Mais informações aqui

Entrada livre!