Entre Seres
Data
Local
Exposição da artista Susanne S. D. Themlitz
Susanne S. D. Themlitz (Lisboa, 1968) realizou, ao longo de um ano, um conjunto de trabalhos concebidos a partir das coleções do MUHNAC e do Jardim Botânico de Lisboa. A artista colaborou com investigadores do MUHNAC e com o Arquivo de Som.
A exposição Entre Seres apresenta uma curta-metragem filmada no museu e no Jardim Botânico de Lisboa, intervenções nas vitrinas, uma edição e uma instalação no Laboratório em colaboração com Roman Jungblut.
O projeto contou com o Apoio à Criação da Fundação La Caixa/BPI e com uma residência artística no MUHNAC.
Inauguração: 8 de maio, 18h00
Curadoria: Sofia Marçal
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O mundo de Susanne S. D. Themlitz
A exposição Entre Seres[1] da artista visual Susanne S. D. Themlitz vem na sequência da residência artística que desenvolveu no museu durante cerca de um ano, onde teve a oportunidade de contatar com as coleções científicas do museu, assim como trabalhar com os respetivos curadores das coleções naturalistas nomeadamente com os taxidermistas Ana Campos e Pedro Andrade, o curador do arquivo de som, Paulo Marques e Roberto Keller, curador da coleção de Entomologia. A exposição tem a colaboração do artista visual alemão, Roman Jungblut com intervenções no laboratório ao nível da tecnologia e do som e na pós-produção do filme.
Com a intenção de cruzar o seu trabalho artístico com as coleções do museu, Susanne percorreu um caminho por entre os vários acervos naturalistas e foi delineando um pensamento artístico onde a sua materialização se desvela no Laboratório de Química Analítica. Mas não querendo ficar presa a um só espaço, Susanne S. D. Themlitz expande-se pelo museu e os seus trabalhos vão criar diálogos com os objetos das coleções naturalistas em vários locais colocados subtilmente dentro de vitrines em plena harmonia com os objetos existentes. Numa experiência de contaminação, onde o encontro e a descoberta são empreendidos natural e integradamente num contexto pré-existente.
O Laboratório transforma-se num lugar de escultura, de pintura, de desenho, de instalação, de reencontro do espaço, do tempo, da forma, da matéria, onde a artista se expressa em constantes metamorfoses e onde o tempo nasce, “a vida é o reino de não linear, a vida é o reino da autonomia do tempo, é o reino da multiplicidade das estruturas. E isto não se vê facilmente no universo não vivo.”[2] Numa autonomia e num confronto com a corporalidade patente na exposição Susanne S. D. Themlitz adequa a sua prática a este espaço museológico. Num revivalismo do seu processo de trabalho com a apresentação de algum material que serviu de base aos seus trabalhos.
A exposição Entre Seres coloca-nos perante cenários de permanentes contágios, de afirmação da própria materialidade e da consciência artística do ponto de vista da articulação conceptual. “Só de vez em quando, do fundo de nosso cansaço, ressurge em nós a consciência das coisas, tão pungente que nos provoca lágrimas.”[3] A exposição pretende sensibilizar-nos para uma infinidade de estímulos que advêm da relação da arte com a ciência, das suas dinâmicas como forma confluente de experimentalismo.
O filme Entre Seres que podemos visionar no Amphiteatro de Chimica, expressa a essência da exposição, a narrativa ficcional que percorre o filme é paralela ao acervo do museu, que coexistem numa dimensão do absurdo, de experienciar a razão e a criatividade, numa fluidez dessa impossibilidade de uma existência comum. A estética enquadra-se num tempo tecnológico de sequências de imagens e do seu ritmo, mais lento ou mais rápido numa liberdade poética da artista. “O que é interessante no cinema é que é um instrumento de descoberta. E essa descoberta pode ir muito longe.”[4] O filme leva Susanne S. D. Themlitz a percorrer um caminho de descoberta no experimentar outra linguagem, outros referenciais, numa inquietude que permeia o ato da criação.
A exposição remete-nos também para os Gabinetes de Curiosidades, um gabinete da vivência de Susanne S. D. Themlitz, onde todos os objetos têm a sua história, e com liberdade sistemática e aparentemente desordenada que nos aproxima dos primeiros museus ainda gabinetes de curiosidades. “A tarefa e a grandeza potencial dos mortais têm a ver com a sua capacidade de produzir coisas – obras, feitos e palavras - que mereceriam pertencer e, pelo menos até certo ponto, pertencem à eternidade, de sorte que, através delas, os mortais possam encontrar o seu lugar num cosmo onde tudo é imortal exceto eles próprios.”[5] A exposição Entre Seres remete-nos para um referencial real onde o diálogo apresentado é condição essencial para ativar o nosso imaginário refletido na sua imortalidade.
Sofia Marçal
[1] O projeto contou com o Apoio à Criação da Fundação La Caixa/BPI.
[2] ilya prigogine, in: O nascimento do tempo, p.26. Químico russo neutralizado belga, prémio Nobel da química em 1977.
[3] Natalia Ginzburg, in: As pequenas virtudes, p.91.
[4] Éric rohmer, In: Éric Rohmer ou o génio do moderno cinema francês, p.7.
[5] Hannah Arendt, in: A condição humana, p.27-28.