Estudos para um jardim invisível
Data
Local
Exposição do artista plástico Bruno Côrte
Inauguração dia 6 de junho, às 18h00.
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A natureza encenada
A exposição Estudos para um jardim invisível do artista visual Bruno Côrte vem na sequência da sua residência artística no museu onde trabalhou com as coleções vivas de botânica, no Jardim Botânico. É a segunda exposição do artista nesta sala.
Com este novo trabalho, a pesquisa de Bruno Côrte incide principalmente numa nova abordagem da paisagem através da instalação, no que se refere à transitoriedade e exploração do espaço, onde todo o espaço é transformado numa instalação, numa instalação velada. Os móveis estão preenchidos com papel de seda, criando uma volumetria, evidenciando a necessidade Bruno Côrte de automatização do médium e de deixar falar o material, o papel de seda. Citando Éric Rohmer, “o problema que nos preocupa não é o de uma maior ou menor consciência dos meios de expressão, nem da passagem de uma fase ingénua a uma fase intelectual: trata-se de se opor a uma arte que estaria encerrada em si mesma, que se contemplaria, e uma arte que contemplaria o mundo.” Bruno Côrte desafia-se e constrói uma metáfora de um diário gráfico, onde as páginas ainda estão em branco, à espera que o tempo as preencha.
Nesta exposição somos convidados para atravessarmos o limiar do visível, onde o efémero e o eterno se encontram num diálogo poético. “A imagem dessas casas que integram o vento, que aspiram à leveza aérea, que põem sobre a árvore de seu inverosímil crescimento um ninho prestes a voar, pode ser recusada por um espírito positivo, realista. Mas, para uma tese geral sobre a imaginação, ela é preciosa porque é tocada, sem que o poeta provavelmente o saiba, pelo apelo dos contrários que dinamizam os grandes arquétipos.” O Laboratório de Química Analítica abriga a poética efémera de Bruno Côrte e contagia os visitantes com a leveza do material escolhido.
Continuando com o pensamento do artista, “inspirado, talvez, pela delicadeza de um verso de Emily Dickinson , A luz existe no ar, mas não a vemos, transformei o espaço expositivo numa meditação sobre a presença impercetível da natureza. Os móveis da sala, envoltos em papel de seda branco tornaram-se num véu translúcido, um estudo do invisível a manifestar uma impertinência calculada, evocando as telas etéreas de Agnes Martin onde o vazio se torna matéria.” A instalação-encenação está instalada para dar protagonismo à hotte onde estão colocados elementos colhidos no Jardim Botânico; folhas, sementes e ramos.
Estes objetos orgânicos, pedaços de melancolia das naturezas-mortas, que Bruno Côrte recria num género que é essencialmente associado à pintura, situa-se entre aquilo que é a pintura e as suas temáticas, o seu território específico e uma outra perspetiva, um outro médium que não se esgota como um arquivo natural, é um testemunho do tempo e um herbário vivo que carrega as memórias de estações passadas. “Apenas uma memória humilhada podia ter feito com que eu os conservasse. Submeti-me às vontades do mundo em que vivo, que se esforça para que todos se esqueçam das lembranças de
uma vida com hábitos mais simples, como se fossem uma coisa de mau gosto.” A simplicidade da instalação, a sua fragilidade e harmonia, lembra-nos os primórdios da humanidade, onde a relação do Homem com a Natureza era plena a absoluta.
Segundo Bruno Côrte, esta acumulação de fragmentos naturais remete para as intervenções de Joseph Beuys, que via na matéria orgânica um potencial de transformação social ou às práticas de Andy Goldsworthy, cuja arte efémera dialoga com a paisagem em constante mutação. Efetivamente, Bruno Côrte explora a relação entre o Homem e o Ambiente com a urgência ecológica de hoje, num mundo que precisa de estar em harmonia com a Natureza. Esta instalação é um convite à introspeção, no antigo Laboratório de Química Analítica, lugar acético, onde o silêncio da matéria orgânica é mais importante e absorvente que o ruído exterior.
Sofia Marçal