Passar para o conteúdo principal

Exploratorius

Exposição de Arte e Ciência

Data

27 Fevereiro - 29 Março 2026

Local

Laboratório de Química Analítica | Museu

Exposição da artista Elaine Pessoa

O Projeto Exploratorius interroga a influência colonialista nas “imagens do futuro”, incluindo aquelas produzidas pela inteligência artificial. Partindo especialmente das descrições dos diários dos naturalistas Spix e Martius, na obra Viagens pelo Brasil de 1817-1820, e de um conjunto de pesquisas em arquivos e coleções portuguesas, acervos pessoais e diversas experimentações com programas de inteligência artificial. A artista explora imageticamente como o olhar e o pensamento visual, que intermediam os modos de conhecer a história da ciência e política das imagens contemporâneas, seguem predominantemente pautados por filtros e regimes colonialistas.

Curadoria: Sofia Marçal

Inauguração: 26 fevereiro, 18h00 

 

CONVITE

 

*****

Cabinet d'amateur

Elaine Pessoa com a realização da exposição Exploratorius transforma o Laboratório de Química Analítica num Gabinete de Curiosidades[1] ao estilo do século XVI, mas com uma abordagem contemporânea. Ao mesmo tempo a exposição pretende evidenciar a intenção da artista questionar o colonialismo a partir do livro Viagens pelo Brasil 1817-1820, de Spix e Martius. “A América essa nova parte do mundo apenas conhecida de poucos séculos atrás, tem sido, desde a época de seu descobrimento, objeto da admiração e predileção da Europa. A feliz situação, a fertilidade e diversidade de riquezas do seu solo, atraem tanto colonos e negociantes, como pesquisadores científicos.”[2] Esta instalação imagética, utilizando a Inteligência Artificial, IA na elaboração das imagens, numa apropriação artística e seletiva, onde a intemporalidade se entrecruza com o pensamento atual, abrindo caminho para uma reflecção à cerca do fazer artístico, do seu questionamento enquanto área do conhecimento empírico numa abordagem social.

Podemos também evocar Alexandre Rodrigues Ferreira, que já em 1783, inicia as suas Viagens Filosóficas pelo Brasil, “no reinado de Dona Maria I, partiu para Belém do Pará, em setembro de 1783, na charrua Águia e Coração de Jesus, com a missão de recolher e aprontar todos os produtos dos três reinos da natureza que encontrasse e remetê-los ao Real Museu de Lisboa, bem como fazer particulares observações filosóficas e políticas à cerca de todos os objetos da viagem.”[3] Este livro faz parte do espólio cientifico do Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

 

A apropriação filosófica de Elaine Pessoa é mais do que metodológica é uma análise poética universal onde se problematiza o colonialismo a par de um enquadramento estético como atividade científica. A exposição é instalada à maneira dos Gabinetes de Curiosidades, um caos organizado, onde a saturação dos elementos expostos, fotografias e imagens se relacionam numa reflexão teórica como parte integrante do fazer artístico de Elaine Pessoa.


Sofia Marçal

 

Para a reflorestação do imaginário

Em Futuro Ancestral, Ailton Krenak lança um apelo coletivo de sobrevivência: “temos que reflorestar o nosso imaginário”[4], que é traduzido como um ensaio visual imersivo, na exposição Exploratorius da artista e investigadora brasileira Elaine Pessoa.

Revisitando ilustrações e gravuras naturalistas produzidas durante o contexto colonial português sobre o território brasileiro, esta instalação no Laboratório de Química Analítica, ocupa armários e superfícies de trabalho com representações documentais e compósitas de flora, fauna, cartografia e geologia, que se sobrepõem em escalas que vão do microscópico ao panorâmico. Mimetizando o ethos fragmentário, eclético e açambarcador de um gabinete de curiosidades, o projeto explora a tensão entre a natureza e a sua representação, questionando o “natural” como construção histórica, resultado de sucessivas interposições científicas, artísticas e tecnológicas, em que as imagens, segundo Emanuele Coccia[5], operam sempre como mediações que se autonomizam do real.

Com recurso à inteligência artificial (IA) - para sintetizar imagens a partir de diários de viagem e descrições de expedições -, e à intervenção manual com pigmento dourado sobre as ilustrações, Exploratorius dissolve fronteiras entre o manipulado e o histórico, refletindo sobre a transição para um mundo cada vez mais mediado por dados, onde a remistura e reutilização diluem a relevância do autêntico. A exposição afirma a promptografia como método de investigação artístico e crítico dos próprios sistemas de IA, evidenciando também os enviesamentos dos seus algoritmos, quer para reproduzir visões dominantes quer autorreferenciais, em ciclos concêntricos que dificultam o encontro com a alteridade, como observa Byung-Chul Han[6].

No seu entrelaçamento entre o analógico e o digital, o real e o imaginário, o histórico e o presente, Exploratorius propõe ainda o confronto com as ausências produzidas, sabendo-se que muitas das paisagens e espécies então ilustradas encontram-se hoje profundamente transformadas, vulneráveis ou extintas — após expedições que transportaram milhares de exemplares para a Europa, e séculos de extrativismo e violência antropogénica que se prolongam até hoje. Desta forma múltipla, a exposição convoca o apelo de Krenak para a reflorestação do imaginário: um repensar das relações entre humanos e não humanos e reabrir da possibilidade de um encontro mais sensível e menos mediado com o mundo.

Catarina Vitorino

 

 

[1] Os gabinetes de curiosidades foram criados na Europa genericamente a partir do final do século XV até ao século XVIII, salas onde eram depositados variadíssimos objetos de arte, instrumentos de ciência, animais, plantas e curiosidades ligadas às expedições realizadas ao “novo mundo”.

[2] volume I, p.22.

[3] Alexandre Rodrigues Ferreira, in Viagem Filosófica, pelas capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá 1783 -1792, p.25.

[4] Ailton Krenak, 2022, Futuro Ancestral, Antígona, p.53

[5] Emanuele Coccia, 2010, La Vie sensible. Payot & Rivages, p. 52

[6] Byung-Chul Han, 2018, A Expulsão do Outro. Relógio D'Água