Vestígios de Memórias
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Exposição da artista plástica Weronika Anna Rosa
A exposição é Inspirada nos antigos herbários, trabalhos do campo e nos dados da Lista Vermelha das Plantas Vasculares, a artista recria a fragilidade da flora ameaçada através de uma instalação envolvente. A exposição entrelaça a arte e a ciência, evocando a nossa ligação com a natureza. Entre as pinturas, sons e fragrâncias, a artista convida-nos a uma experiência sensorial, que ativa a perceção através das emoções, memórias e associações subconscientes e desafia a nossa consciência ecológica.
Curadoria: Sofia Marçal
Inauguração: 3 de julho, 18h00
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A memória do futuro
A exposição Vestígios de Memórias da artista visual Weronika Anna Rosa vem na sequência da sua visita ao Herbário do museu, onde a artista ouvi falar pela primeira vez da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal publicada em 2019[1], onde foi acompanhada pela Doutora Ana Isabel Dias Correia curadora da coleção científica do LISU.[2] Foi o inicio da sua pesquisa sobre o risco de extinção, a evolução das plantas terrestres, e as suas relações com a humanidade. Como resultado dessa pesquisa são apresentadas doze pinturas sobre tecido. Estes desenhos suspensos, movimentam-se lentamente com a circulação do ar e as plantas desenhadas movem-se. Pode-se passear entre eles, caminhar, sentir a natureza. A artista trabalhou essa coleção numa visão contemporânea, intencionalmente focada no desenho da mancha, numa abordagem que evoca a contemporaneidade. “O passado, conservando o sabor do fantasma, recuperará a luz da vida, e se tornará presente.”[3] Contribuindo assim, através da arte para a divulgação e agregação de campos de reflexão e de conhecimento tradicionalmente separados ao recriar a fragilidade da flora ameaçada através de uma instalação envolvente. As pinturas sobre tecidos orgânicos retratam silhuetas vegetais à escala a exceder o corpo humano, invertendo a hierarquia nas dinâmicas da era do Antropocénico.
O conceito da exposição deve ser entendido da forma mais ampla independentemente do tipo intencional que a artista lhe queira atribuir, numa estética poética. Citando a artista, “o resultado desta exploração, apresentado sob forma de uma instalação artística; visual, sonora e olfativa tem como objetivo sensibilizar e consciencializar as pessoas para a vulnerabilidade das plantas que nos rodeiam e a sua importância na nossa sobrevivência. Precisamos de compreender a fragilidade das plantas, antes que se tornem apenas umas formas de vida, gravadas como um fóssil numa folha de herbário.” Os herbários são arquivos de memória, preservando evidências físicas da existência de uma planta. Muito antes da fotografia ou da documentação digital, os herbários desempenharam um papel crucial na catalogação da biodiversidade, na descrição de novas espécies e no estabelecimento de sistemas de classificação. Ao compararmos registos passados e presentes, podemos rastrear o declínio ou extinção de espécies e observar como a distribuição das plantas se altera devido às mudanças climáticas e à perda de habitat. Para algumas espécies extintas ou criticamente ameaçadas, as folhas de herbário podem ser a única prova restante de que alguma vez existiram. Inscrita numa tela suspensa está a lista das plantas extintas.
Complementam a exposição a instalação sonora, Uma sinfonia natural e como nos diz a artista, “os estudos recentes demostram que as plantas conseguem identificar uma determinada gama de ondas sonoras e desenvolveram a capacidade de interpretar o som da água corrente ao dirigir o crescimento das suas raízes para a fonte do som, apesar de não sentir a humidade na terra. Por isso, gravações de água em diferentes estados e movimentos ecoam pelo espaço, refletindo a viagem instintiva e vivificante da flora.”[4] Segundo Tales de Mileto, o Universo é feito de água.
Na sala também se sente o cheiro da Natureza, através da fragância Traces of Memories, composta especialmente para esta exposição por Michael Nordstrand (Mythologist Studio, NY), inspirada na terra húmida e na natureza selvagem. Os aromas têm o poder de nos transportar para memórias e lugares, vividos ou imaginários.
Objetos das coleções naturalistas do museu estão em diálogo com a exposição, em cima da bancada estão colocados tubos de sementes de espécies da flora portuguesa pertencentes à coleção didática do Banco de Sementes A.L. Belo Correia, MUHNAC-ULISBOA[5] e na hotte estão expostos 2 exemplares (fac-simile) da Coleção Narcissus Cavanilesii A. Barra & G. López Herbário LISU, Jonaceteum Miorophyllum D. C. Herbário LISU,
A exposição Vestígios de Memória não é apenas uma reflexão sobre a perda, como se pode ver pela cor monocromática utlizada no desenho das plantas. A exposição é uma metafórica poética, é um convite à reflexão sobre o impacto da atividade humana e da nossa dependência da natureza. Através desta exposição a artista convida-nos a reconsiderar o nosso papel, não apenas como habitantes, mas também como protetores do planeta, para que a sua frágil beleza não se torne apenas uma memória preservada num fóssil esquecido. A exposição lida com o reposicionamento da identidade e da reavaliação da consciência clara e emocional da estética de Weronika Anna Rosa e consciencializa o público para as plantas terrestres em extinção, numa memória de futuro.
Sofia Marçal
[1]“Estabelecida em 1964, a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) é um indicador crítico da saúde da biodiversidade mundial. Muito mais do que uma lista de espécies e o seu estado, é uma ferramenta poderosa para informar e catalisar ações para a conservação da biodiversidade e mudanças políticas, fundamentais para proteger os recursos naturais. De um total de 630 plantas avaliadas dentro de enquadramento da primeira Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, 381 encontram-se numa categoria de ameaça. 84 plantas encontram-se Criticamente em Perigo (au seja estão mesmo à beira da extinção), 128 Em Perigo (elevado), e 19 espécies foram classificadas como Regionalmente Extintas (“Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental.” M. Porto, A. Francisco, p. 23-25”.
[2] “As coleções de plantas vasculares do herbário LISU totalizam cerca de 120.000 folhas de herbário. As duas principais coleções são o Herbário Português do Professor António Xavier Pereira Coutinho e o Herbário Geral. O Herbário Português é uma coleção de referências que inclui a coleção de A.X. Pereira Coutinho (1851-1939). Esta coleção iniciou-se com os espécimes recolhidos no âmbito da publicação da Flora de Portugal (1913, a 1a edição e 1939, a 2a) e tem sido continuada desde então por outros botânicos. Contém cerca de 31.000 exemplares de espécies da flora de Portugal continental.”
[3] Charles Baudelaire, in: O pintor da vida moderna, p.16
[4]Abhishek Bhandawat, Kuldip Jayaswall in: Biological relevance of sound in plants.
[5] O Banco de Sementes A.L. Belo Correia integra uma coleção de sementes da flora portuguesa para a conservação a longo prazo, de forma a possibilitar o eventual repovoamento ou a recuperação ecológica das populações na sua área de distribuição.