Fragmento de Abundância
Data
Local
Exposição da artista Katrin Von Lehmann
A exposição, resultado da residência artística da artista no Museu, incidiu sobre o herbário de Friedrich Welwitsch.
Inauguração: 30 de outubro, 18h00
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Numa poética da sistematização da (in)constância
A exposição Fragmento de Abundância, da artista alemã Katrin von Lehmann é o resultado da sua residência artística no museu, que incidiu sobre o herbário de Friedrich Welwitsch.[1]A exposição está em processo de trabalho e de investigação, a artista vai continuar a sua pesquisa e reflexão sobre este tema, com um propósito vanguardista numa reinterpretação entre o espaço bidimensional e o espaço tridimensional dos herbários, indo ao encontro do pensamento de Hannah Arendt. “A sua arte consiste em usar e, ao mesmo tempo, transcender o que há de real, de experiência demonstrável na ação escolhida, generalizando tudo num artifício que passa a estar definitivamente fora de qualquer controle possível por parte do indivíduo.”[2]
Os trabalhos aqui apresentados são a consequência de uma pesquisa intensa por parte da artista, onde o seu olhar é fulcral para estabelecer uma relação simbólica com os herbários. Aqui a materialização modela a imaginação, onde o olhar se torna passivo perante os vários herbários visionados pela artista. Citando a artista, “Foi em 2023, que tomei conhecimento do herbário, Iter Angolense, pela mão da Doutora Ana Isabel Dias Correia, curadora do museu, falou-me de Friedrich Welwitsch[3] e a sua expedição nos territórios da ex-colónia Portuguesa entre 1853 e 1860. Atravessando com ela o ar frio dos corredores aclimatizados das reservas do MUHNAC, pude ver uma pequena amostragem das cerca de 8.000 espécies diferentes de plantas que Welwitsch enviou para Lisboa. Foi um momento muito especial, ver plantas que, a meio do século XIX, foram identificadas, analisadas, cortadas, secas, e preparadas para o transporte entre continentes.”
A exposição é composta por nove fotografias que formam a instalação One Plant, Two Names. Estas fotografias foram realizadas ao longo de um dia, com a intenção de mostrar as várias tonalidades de luminosidade que ocorrem durante vinte e quatro horas. Citando a artista, “uma janela antiga com muitas divisórias, no meu atelier temporário numa antiga fábrica de conservas perto de Lisboa, inspirou-me a trabalhar com transparências. Foi aí que surgiu a ideia sa instalação.” Na exposição questiona-se o conceito de matéria- luz num duplo olhar científico e artístico. “Cada coisa nasce e vem à luz do dia no lugar onde se encontra a sua matéria e os seus corpos primordiais, e por isso não é possível que tudo nasça de tudo.”[4] Katrin eleva a luz a uma linguagem não visível tornando-a visível, para além da perceção da sublimação do visível no invisível, esta instalação é o produto de uma clareza e organização sistemática por parte de Katrin von Lehmann.
Instalada em frente está a série Plants 1850s and 2024 onde são utilizadas as mesmas cinco plantas da série One Plant, Two Names. A artista quis criar um diálogo entre as fotografias de plantas secas do herbário e as fotografias das plantas vivas. E também criou um diálogo entre a sua prática e o seu pensamento, originando uma experiência de causalidades reciprocas num domínio concetual e percetual. Estes trabalhos são realizados com a tecnica do recorte e citando a artista,“como num processo de intársia (incrustação), os círculos são ligeiramente rodados ou trocados com círculos de outra fotografia.” Em oposição à série anterior, estes trabalhos simulam fragmentos de abundância numa anarquia entropica de estética ritmada e sóbria.
No topo da sala, localizam-se dois trabalhos intitulados Tempestade Martinho e Lioz 1+2. Um díptico, uma fotografia da árvore FICUS MACROPHYLLA[5] que se encontra no jardim do museu, parte dessa árvore caiu durante a tempestade no dia 20 de março de 2025. E outra da pedra mármore que está no exterior do museu, na sua entrada. São duas interpretações das mesmas fotografias, numa consciência interpretativa no limite da visibilidade e da tangibilidade, neste caso de uma matéria orgânica e outra inorgânica, numa lógica de depuração da imagem. A artista utiliza a técnica da fotografia entrelaçada.
Com a materialização de fragmentos da natureza, a criação artistica de Katrin relaciona-se numa conscialização estética. “Só de vez em quando, do fundo de nosso cansaço, ressurge em nós a consciência das coisas, tão pungente que nos provoca lágrimas.”[6] Onde predomina a manifestação da simbiose e da transformação numa perspetiva poética da arte, nas diferentes formas de interpretação e da sistematização da (in)constância.
Completa a exposição algumas espécies pertencentes ao Jardim Botânico de Lisboa, MUHNAC-ULISBOA,[7] nomeadamante: Auraucaria bidwillii, Erytherina caffra, Dracaena draco e Sequoia, em diálogo com os trabalhos expostos.
Sofia Marçal
[1] Welwitschia é um género monotípico de plantas verdes gimnospérmicas cuja única espécie é a famosa Welwitschia mirabilis, Hook.f. popularmente conhecida como polvo-do-deserto ou tumbo, que só existe no deserto do Namibe em Angola.
[2]Hannah Arendt, in: Origens do Totalitarismo, p..317.
[3] Friedrich Martin Josef Welwitsch (1806 – 1872), foi um botânico austríaco, conhecido pelo seu trabalho de recolha da flora de Angola no Século XIX.
[4] Tito Lucrécio Caro, in: De Rerum Natura, livro I, p. 165-170.
[5] “A figueira-estranguladora, originária da Austrália, pode germinar sobre árvores hospedeiras, estrangulando-as à medida que as suas raízes aéreas crescem e se estabelecem no solo, formando troncos secundários que rodeiam o tronco grosso e compacto. A árvore é muito exigente em água e tem uma elevada taxa de crescimento, podendo atingir mais de 60 m de altura.” Ireneia Melo e Raquel Barata botânicas do Museu Nacional de História Natural e da Ciência.
[6] Natalia, Ginzburg, in: As pequenas virtudes, p.91.
[7] O Jardim Botânico de Lisboa, inaugurado em 1873 e classificado como monumento nacional, integra coleções científicas que servem a investigação botânica e a educação sobre a relevância da diversidade de plantas e processos ecológicos associados, ao mesmo tempo que garantem a conservação efetiva de espécies ameaçadas de extinção a nível global.
PROGRAMA ASSOCIADO
3 de fevereiro, 17h00
Conversa em torno da exposição.
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