Fuuu… (Sopro) Tááá: Marãny
Data
Local
Exposição da artista Letícia Larín
Com a colaboração de Chipe, Kunhã Ysapy e Ariel Kowé
O conjunto de trabalhos desta exposição origina-se de conexões junto às culturas indígenas Kaiowá e Guarani, e visa propiciar ao público uma experiência de imersão numa outra cosmovisão.
Curadoria: Sofia Marçal
Inauguração: 16 janeiro, 18h00
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A metamorfose da onça
Na Exposição Fuuu… (Sopro) Tááá: Marãny[1]da artista visual Letícia Larín cruzam-se linguagens híbridas; desenho, pintura, objetos, escultura, instalação, fotografia e performance. Os trabalhos desta exposição resultam da convivência com as culturas indígenas; Kaiowá e Guarani. “A obra de arte é uma força social que cria dois grupos antagônicos, que separa e seleciona a imensa multidão em dois diferentes tipos de homens. Qual é o princípio diferenciador dessas duas castas? Todas as obras de arte são divergentes, alguns gostam, outras não; alguns gostam menos, outros gostam mais. Essa dissociação não tem caráter orgânico, não obedece a um princípio.”[2] A exposição tem como intenção proporcionar aos visitantes uma experiência imersiva num contexto de descoberta do valor da obra de arte para cada um. Os trabalhos são compostos por materiais naturais e objetos inorgânicos.
Letícia Larín traz o seu imaginário para o museu, assim como o espírito dos povos indígenas, juntamente com o seu trabalho de investigação e com a sua metodologia de aproximação à ciência. “Sentimos incerteza quando não conhecemos bem os tipos de fatores que fazem de nossa situação o que ela é; assim, não sabemos quais deles devem ser empregados e colocados em movimento para tornar nossa situação mais agradável – ou os fatores necessários para evitar que ela piore; sentimos impotência quando aprendemos ou suspeitamos que, embora tivéssemos preparado um inventário completo de tais fatores, nos faltariam ferramentas, habilidades ou recursos para colocá-los em movimento ou para desligá-los, caso necessário.”[3] Numa procura por desconstruir paradigmas científico-ocidentais, estes trabalhos revelam a magia do viver integrado com a natureza e das relações inter-raciais. É o resultado do trabalho de campo de Letícia Larín na Reserva indígena de Dourados no Estado de Mato Grosso do Sul.
O conceito da exposição parte da palavra perigosa Marãny, não foi fácil para a artista trabalha-lo porque é abstrato e amplo, citando a artista, “fiz um exercício sobre a onça, para o povo Guarani, no processo de envangelização, a parte do jaguar foi deixada e perdida da memória, ficou a questão do amor e do bem. Quase todos os trabalhos apresentados estão relacionados com esta temática, de tentar estar em sintonia com a parte perdida O exercício mais insistente é o da metamorfose em onça, através de desenhos, pinturas mordidas, vídeo-performance, áudio-performance. Mas nesse bestiário sinestésico estão também serpentes, carrapichos, morcegos, araras. Um toque das iluminuras medievais e seus animais fantásticos ressoa nessas perspetivas originárias, para as quais tudo o que existe é transpassado por espíritos.” Um eco da descolonização materializa-se em peças instaladas nas paredes, no chão e no teto, destruindo muros entre cosmovisões díspares. Técnicas artísticas tradicionais misturam-se com gestualidades soltas; materialidades artesanais e tecnológicas agrupam-se.
Completa a exposição 2 exemplares pertencentes à coleção de taxidermia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, um lagarto-de-cauda-espinhosa do género Uromastryx e um morcego-de-ferradura-grande Rhinolophus ferrumequinum, apresentados não com a intenção de serem observados como objetos científicos, mas enquanto seres pertencentes a uma realidade em que tudo o que existe materialmente possui uma componente espiritual.
Nesta exposição, como nos diz a artista, diversas obras criadas sob inspiração dessas culturas indígenas constituem um tipo de ecossistema, manifestando a convivência entre distintas maneiras de se estar no mundo. Marãny é assim referido de um modo multifacetado, com ênfase na ideia de devir animal, de devir sagrado, de devir outro ou outra, ou mesmo de devir caça ou devir extinto. Os trabalhos artísticos apresentados pertencem à investigação de doutoramento em Escultura na FBAUL, sendo “marãny” o mote da principal obra artística –um monumento– elaborada nessa tese. Esta exposição aprofundamento em marãny e manifesta um tipo de ecossistema, marcado pela interdependência entre diferentes formas de existir.
Citando a artista, “A presente exposição concebe uma atmosfera de criação livre e visceral, onde cada elemento é marcado por memórias afetivas e singulares. Esse tipo de profundidade subjetiva conferida nas peças torna o formato da mostra imprevisível.” A exposição como uma história de aprendizagem, uma materialização de memórias. Exposição do espaço, ao pensarmos nas caminhadas, passeios, que Letícia Larín fez, e exposição do tempo, tempo da sua experiência, da sua aprendizagem, do seu percurso artístico, aqui concretizados nestes trabalhos. “Sou limitada apenas pela minha identidade. Eu, entidade elástica e separada de outros corpos.[4] (…) Quando penso no que já vivi me parece que fui deixando meus corpos pelos caminhos.”[5] A exposição é também um processo de investigação, de procura -constante, até à obra final.
Sofia Marçal
[1] Fuuu… (Sopro) Tááá” trata-se de um jehovasa, um passe ritual Guarani a abençoar antes de se dizer “marãny”. Marãny refere-se ao que não nos faz bem, de tempestades e vendavais a pragas e vírus.
[2] Ortega e Gasset, in: La Deshumanización del Arte, pp.343-355.
[3] Zygmunt Bauman, in: Danos Colaterais – Desigualdades sociais numa era global, p.134
[4] Clarice Lispector in: Água Viva, p. 14
[5] Ob. cit., p. 33.
PROGRAMA ASSOCIADO
26 MARÇO
17h00 - Conversa em torno da exposição
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