Histórias lindas de morrer
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Exposição da artista Sofia Saleme
Na exposição Histórias lindas de morrer , a artista explora cicatrizes que habitam corpos: as fragilidades e resistências, dores e as resiliências que marcam os nossos organismos e trajetórias.
A partir do seu olhar enquanto artista e arquiteta, Sofia Saleme observou e tirou medidas ao espaço para criar desenhos que mergulham no interior do corpo - nas entranhas, fluidos e cicatrizes - refletindo sobre o adoecimento, a dor, o envelhecimento e a regeneração. O desenho é a linguagem fundamental no trabalho de Sofia, que observa o mundo a partir do seu traço.
Obras como Céu Estrelado, um mapeamento de pintas; Pústula ouro, inspirada na amigdalite; Acidente Amoroso, sobre uma queimadura; e Compulsão Prazerosa, que aborda a gordura, compõem o seu inventário íntimo. Os trabalhos recorrem a pigmentos naturais preparados manualmente, como o gofun, uma tinta branca tradicional japonesa feita a partir de conchas de ostra moídas. Material central da sua prática, a folha de ouro é aplicada com técnica japonesa tradicional (técnicas nipônicas que a artista aprendeu no país) sobre zonas incómodas ou até escatológicas - pus, excrementos, tumores - transformando a matéria rejeitada numa cicatriz preciosa, conferindo beleza ao que normalmente é ignorado e propondo uma reflexão sobre a aceitação, tanto íntima como coletiva.
Curadoria: Sofia Marçal
Inauguração: 2 de outubro, 18h00
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Vestígios preciosos de memórias
A exposição Histórias Lindas de Morrer de Sofia Saleme é composta por 10 desenhos sobre tela suspensos como a abraçarem a sala Branca Edmée Marques[1] em diálogo com a coleção Cuidar e Curar - mostra de objetos da coleção da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, depositados no Museu, exposta dentro dos armários da sala. Citando a artista “habitar um espaço carregado de história e de amplitude me libertou. Nele, minha pesquisa sobre doenças e acontecimentos ganhou novas perspetivas e se transformou em matéria viva para minha expressão. A escala generosa do lugar me permitiu explorar novos materiais e formas de desenhar, criando um diálogo direto entre o meu corpo no ato de criar e o corpo do espectador diante das obras”
Estes desenhos têm a particularidade de utilizarem pigmentos japoneses naturais, o branco por exemplo é retirado das conchas das ostras, o gofun, sendo este trabalho executado pela artista. Assim como a colocação da folha de ouro, técnica também aprendida no Japão por Sofia Saleme. Com estes desenhos a artista pretende expressar o conceito de efémero, da impermanência, da passagem do tempo, de envelhecimento, da doença e da morte, também reflexo do seu pensamento, da sua individualidade e da sua identidade. “Sou limitada apenas pela minha identidade. Eu, entidade elástica e separada de outros corpos.”[2]
A artista coloca folha de ouro no lugar das feridas físicas, ao preencher com este mineral precioso, enaltece a cicatriz e constrói um diálogo entre a matéria e a resiliência ambas coexistem como uma evidência do desejo de reparação através de técnicas ancestrais da folha de ouro, da filosofia Wabi-Sabi, materializadas na exposição em frágeis desenhos-pinturas. “Enquanto, no entanto, a pintura continuar a constituir uma retoma da corporalidade e da fisicalidade da imagem, o seu lugar como imagem corporalizada poderá permitir-lhe retomar uma discussão sobre o sentido das imagens, o seu profundo sentido antropológico e a sua liberdade - porque a pintura tem o enorme privilégio de eleger a sua realidade, de a fazer, a partir da definição do seu modelo.”[3] A poética de Sofia Saleme consubstancializada no visível e pressentida no invisível, questiona e formula a reflexão do paradigma da representação pictórica da patologia como forma estética e da sua aceitação. “Negociar e observar um modus vivendi; ou seja, um modo de coexistência que incluiria a aceitação voluntária de limites inevitáveis à sua própria liberdade de manobra.”[4] Nestes desenhos com representações de lindas histórias de morrer, Sofia Saleme valoriza a beleza do que é cotidianamente ocultado, aceitando a ferida e enaltecendo-a.
A exposição Histórias Lindas de Morrer é um site-specific e como nos diz a artista, “a partir do meu olhar enquanto artista e arquiteta, observei e tirei medidas ao espaço para criar desenhos que mergulham no interior do corpo - nas entranhas, fluidos e cicatrizes - refletindo sobre o adoecimento, a dor, o envelhecimento e a regeneração.” A contemporaneidade proporcionou a construção de uma ponte entre a arte e a ciência, com a sua história, com a sua memória, como é o caso desta exposição. Já não se trata de representar uma realidade exterior, mas sim dialogar com as coleções de medicina que se encontram nesta sala, criando vestígios preciosos de memórias.
Sofia Marçal
[1]Branca Edmeé Marques, (1899-1986), cientista portuguesa na área de física e química. Doutorou-se em 1935, na Universidade de Paris sob orientação de Marie Curie.
[2] Clarice Lispector in: Água Viva, p. 14.
[3] Delfim Sardo, in: Pintura Redux-Desenvolvimentos de uma Década, p14.
[4] Zygmunt Bauman, in: Danos colaterais – Desigualdades sociais numa era global, p. 64.