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Hyperobjects

Exposição de Arte e Ciência

Data

2 Abril - 3 Maio 2026

Local

Laboratório de Química Analítica | Museu

Exposição da artista plástica Daphne Klagkou

A exposição aborda a história natural e a ciência não como sistemas neutros de conhecimento, mas como estruturas através das quais a vida, o poder e a violência são observados, classificados e normalizados. Instalada num laboratório de química histórico, a exposição ativa o local como um espaço de controlo, experimentação e autoridade. Obras de arte em vidro e cerâmica são dispostas no espaço como se ali habitassem, sob o olhar científico.

Curadoria: Sofia Marçal 

Inauguração: 1 abril, 19h30

 

CONVITE

 

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O vidro como expressão artística no Antropoceno

Com a exposição Hyperobjects[1] a artista visual Daphne Klagkou pretende através das suas esculturas de cerâmica e de vidro criar um ambiente de investigação laboratorial, onde os trabalhos artísticos representam hipóteses simbólicas, e não somente objetos decorativos e simulando fictícios invólucros e utensílios de laboratório, numa criação simbólica e poética. Citando a artista, “Esta exposição aborda a história natural e a ciência não como sistemas neutros de conhecimento, mas como estruturas através das quais a vida, o poder e a violência são observados, classificados e normalizados.” Daphne Klagkou apropria-se no Laboratório de Química Analítica não da sua metodologia científica, mas do espaço temporal de preocupação social e questionamento a propósito dos limites e visibilidade dos materiais utilizados na construção dos seus trabalhos artísticos, contrapondo com os outrora aqui utilizados nas experiências científicas.

A abordagem desta exposição[2] à temática ecológica vem na linha de pensamento de Timothy Morton, “na verdade, somos muito mais parecidos com camaleões que assumem cores, metaforicamente falando, independentemente da superfície na qual nos encontramos. Temos grande flexibilidade, que pode ser expandida para incluir mais coisas, assim que que descobrimos como fazê-lo. Se não conseguirmos, algo desagradável acontecerá. Mas, se conseguirmos, algo agradável surgirá. O objetivo de tudo isso é termos uma sociedade mais ecologicamente integrada, tanto para humanos quanto para não-humanos.”[3] A exposição, a partir do diálogo que as esculturas e os desenhos estabelecem ao entrecruzar vários conceitos, coloca-nos em permanentes contágios, intrusões, e inquietações, numa descoberta de novas relações com a natureza no seu fazer artístico ecológico.

Os quatro desenhos estão colocados em diálogo com as esculturas em harmonia e citando Daphne Klagkou, “os desenhos são representações de hiperobjetos ou dos seus efeitos, fazendo uma referência direta ao título da exposição. São fenómenos ou entidades tão massivamente distribuídos no tempo e no espaço, como as alterações climáticas, o plástico ou os resíduos nucleares, que transcendem a perceção humana local. São ‘pegajosos’ (viscosos) e inescapáveis, forçando uma reavaliação da ecologia e do impacto humano.” O fascínio por estes trabalhos artísticos que representam resíduos limpos pode ser apelativo, mas a artista utiliza o efeito do apelo estético para chamar a atenção para as preocupações climáticas e ambientais dos ecossistemas.

As esculturas The Birth, Janus e The Tron estão instaladas no centro sala, Act I na bancada e na hotte, Act II. Segundo Daphne Klagkou, estes trabalhos evocam o impacto que as alterações climáticas, a natureza e as forças criadas pelo ser humano exercem sobre a humanidade. Citando a artista “A presença humana manifesta-se através de cabeças de vidro incorporadas em diferentes objetos, como se se tornassem uma só entidade. O vidro fluorescente verde — que remete para a toxicidade e a poluição — interfere e distorce aquilo que entendemos como natural.” Este interlaçar da natureza com o humano para criar uma nova forma de não-ser é muito interessante e converge para a intersubjetividade e interdependência na relação que temos com a natureza e com as dinâmicas das relações com os outros seres.

O ponto de intersecção entre a Arte e a Ciência é a própria transformação. “E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro.”[4] A criação e construção destes trabalhos artísticos revelam uma pesquisa que pode ocasionar outras possibilidades de investigação numa reflexão sobre o papel do ser humano na sua relação com a era do Antropoceno, crescentemente presente e em problematização em exposições de arte contemporânea.

 

Sofia Marçal

 

[1] Apropriação do título do livro Hiperobjetos, Filosofia e Ecologia depois do fim do mundo do filósofo Timothy Morton.  Professor na Rice University em Houston, EUA.

[2] O tema abordado nesta exposição faz parte da investigação artística de Daphne Klagkou e da dissertação do Mestrado em Arte e Ciência em Vidro e Cerâmica na Vicarte (Nova FCT & FBAUL) defendida em dezembro de 2024.

[3] Entrevista com o filósofo Timothy Morton. Revista de Filosofia Aurora, Curitiba, v. 34, n. 61, p. 307-325, jan./abr. 2022, p.13.

[4] Zygmunt Bauman, in: Amor liquido – Sobre a Fragilidade dos laços humanos, p.18.