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A Indulgência da Lentidão - Capítulo II

Exposição de Arte e Ciência

Data

24 Abril - 30 Julho 2026

Local

Museu

Exposição da artista Natércia Caneira

Nesta convergência entre o rigor científico e a prática contemporânea no MUHNAC, Natércia Caneira investiga a transmigração e a morfologia de "Novos Organismos". Através de uma série de desenhos especulativos, esculturas performativas e instalações site-specific, a artista explora a simbiose e a geopolítica do corpo, propondo a observação lenta como uma ferramenta crítica para mapear ecossistemas invisíveis e a identidade fluida dos "não-lugares". A instalação transforma parte da Sala Allosaurus do museu, num território liminar onde o imaginário e o científico coexistem, desafiando a aceleração do olhar e convidando o visitante a uma reflexão profunda sobre a pertença, a solitude e a beleza que reside na periferia da atenção.

Inauguração: 23 abril, 18h00

Curadoria: Sofia Marçal


CONVITE

 

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A insustentável leveza do ser[1]

A artista visual Natércia Caneira tem vindo a desenvolver um trabalho muito consistente ao longo da sua vida artística, num pensamento lógico e inquietante que se revela nos seus trabalhos onde se problematizam temas pertinentes, como é o caso da Bioarte[2]. A maturidade do seu trabalho, aliada à investigação numa insubmissão de si própria, gera uma desobediência intrínseca que conduz ao seu ato de criação e à materialização das suas obras.

A exposição A Indulgência da Lentidão - Capitulo II é a segunda parte da exposição A Indulgência da Lentidão - Ecossistemas da Atenção.[3] Trabalhos realizados na Polónia, na fronteira com a Bielorrússia, onde a artista se confrontou com a problemática das migrações, das fronteiras, assim como da sua fragilidade exposta a uma realidade até então para si desconhecida. Enquanto na primeira parte da exposição foram apresentados trabalhos do primeiro ano da estadia da artista na Polónia, nesta exposição são apresentados trabalhos do seu último ano.

Na exposição A Indulgência da Lentidão - Capítulo II os trabalhos apresentados incorporam a coexistência de múltiplos significados que assumem, inevitavelmente, uma dimensão de alteridade, onde o tempo, a matéria, a paisagem, a identidade, se diluem uns nos outros. “Se um lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um não-lugar.”[4] Fruto de uma reflexão sobre o tempo no fazer artístico e científico e a consequente interligação,  a perceção de Natércia Caneira foca-se numa procura incessante do visível que se vai desvelando e desenvolvendo na exposição.

Natércia Caneira constrói aqui a sua intimidade concetual num movimento de expansão e de inclusão, onde emergem reações criativas reativas à sua introspeção filosófica e existencial.  “Pode-se ter uma visão de mundo que concentra o tempo no ‘agora’ e o espaço no ‘aqui’. A visão de mundo difere segundo a cultura. Em outras palavras, a postura em relação ao tempo e ao espaço, a imagem e a ideia que se tem deles, por exemplo, não são universais, não ultrapassam as diferenças culturais e, com certeza, seguem um padrão próprio de cada cultura.”[5] Natércia integra nos seus trabalhos vários tempos, vários espaços, várias culturas, mas só uma estética, a sua, numa relação com esses territórios desconhecidos.

A sala de exposição está transformada num território, um território carregado de memórias vividas pela artista na sua breve, mas fecunda passagem pela Polónia. Citando a artista, “a instalação transforma a Sala num território liminar onde o imaginário e o científico coexistem, desafiando a aceleração do olhar e convidando o visitante a uma reflexão profunda sobre a pertença, a solitude e a beleza que reside na periferia da atenção.” O tempo faz perdurar o espaço na memória do corpo, num confronto com a ausência, onde o encontro com o lugar nos encaminha para a materialização dos trabalhos aqui expostos; desenhos, instalação, pinturas e esculturas numa orgânica de site-specific, onde se convoca uma observação cuidada, que não é racionalmente imaculada.

Assumindo uma atitude exploratória a artista delineia a geopolítica do corpo, numa intencionalidade de recriar ecossistemas invisíveis e a identidade fluida dos não-lugares.

 “O mundo tem uma só dimensão para nós, nele não há segredos nem sombras, conseguimos adivinhar e criar a dor que desconhecemos em virtude da força fantasiosa de que somos animados, mas o vemos sempre sob aquela luz estéril e gélida das coisas que não nos pertencem, que não têm raízes dentro de nós.”[6] Não obstante, a vida recria-se e germina, onde o saber sensorial, artístico, emotivo e filosófico de Natércia Caneira se sobrepõe a uma negação do desconhecido numa imensidão crescente de encontros e desencontros; e aí a arte revela-se e assume-se na sua plenitude.

Natércia Caneira para criar um diálogo com os seus trabalhos artísticos escolheu alguns espécimes pertencentes à coleção de entomologia do museu, colocados subtilmente dentro de duas vitrines numa analogia ao trabalho de investigação científico. Os trabalhos artísticos aqui apresentados refletem uma poética que se desenha numa exposição que advém de um duplo olhar artístico e científico. As memórias de Natércia Caneira, a sua vivência e o seu registo temporal, incorporam-se num qualquer lugar que não seja apenas distópico, onde existe a possibilidade da sua contaminação e abertura ao mundo, em comunhão com o saber artístico e científico.

Sofia Marçal

 

 

[1] Apropriação do título do livro do escritor checo, Milan Kundera, 1ª edição, 1984.

[2] A Natercia realizou a exposição A Metamorfose das Formas Simples // Bioarte - The Intuitive Behavior, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa em setembro de 2023.

[3] A exposição esteve exposta de 6 de março a 12 de abril, na parte da frente da sala.

[4] Marc Augé, in: Não-lugares, p.73.

[5] Shuichi Kato, in: Tempo e espaço na cultura japonesa, p.18.

[6] Natalia Ginzburg, in: As pequenas virtudes, p.66.