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Le Regard de L'Invers

Exposição de Arte e Ciência

Data

27 Fevereiro - 9 Agosto 2026

Local

Sala Branca Edmée Marques | Museu

Exposição do artista Pedro Vasconcelos

O corpo principal é constituído de um conjunto de seis “Peep Boxes” dentro das quais se criaram organizaram sequências de utilização. Cada uma tem um vídeo explicativo de um objeto na vitrine vizinha, pode ter o objeto em si, iluminado dentro da caixa, pode ter uma imagem estática, como um ato poético, resultado desse espreitar. Pelo menos uma das caixas terá um espelho colocado de modo a que o olho do visitante seja aquilo que ele vê! É quase um piscar de olho!

Curadoria: Sofia Marçal

 

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Rear Window[1]

A exposição Le Regard à L’Invers de Pedro Jaime Vasconcelos realiza-se na sala Branca Edmée Marques[2] em diálogo com a coleção Cuidar e Curar - mostra de objetos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, depositados no Museu, expostos dentro dos armários da sala.

Na exposição transparece o papel da memória na Arte e na Ciência, essa memória que perdura no tempo e no espaço, memória afetiva de presença-ausência que perpetua a nostalgia e se consubstancia em seis Peep Boxes que o artista criou especificamente para esta exposição.  Citando Pedro Jaime Vasconcelos, “caixas surpresa, são inspiradas nas antigas máquinas de fole, recordações nostálgicas. Caixas escuras onde se podem criar pequenos espaços, revelar fotografias, descobrir imagens.” Nesta exposição, há um nítido regresso ao passado pré-modernista, onde não se evidência o “esmaecimento do afeto na cultura pós-moderna. É claro que seria incorreto sugerir que todos os afetos, todo sentimento ou emoção, toda subjetividade, tenham desaparecido na imagem mais recente.”[3] O artista transpõe para as Peep Boxes pequenos momentos mágicos, indiscretos e sedutores.

Em diálogo com as Peep Boxes está uma máquina fotográfica de fole de final do séc. XIX, princípio do séc. XX, dentro de uma vitrine, instalada como um singelo objeto de museu, sendo o seu protagonismo transferido para as caixas surpresas instaladas ao longo da sala. Le Regard à L’Invers é uma exposição pública, onde os visitantes intervêm diretamente e colocam-se no papel de voyeurs, “obrigado por todo o vosso trabalho árduo e por terem fé no Voyeur e em mim.”[4] Mas, também onde a imagem e o objeto, se encontram com o olho humano num ato solitário, intimista, que aviva o sentido de memória numa reminiscência de expansão dos limites do visível e das suas revibrações do passado no presente.  Como Hitchcock disse numa entrevista a Truffaut a propósito do filme Rear Window “Somos todos voyeurs, ainda que apenas quando assistimos a um filme intimista.”[5]

A exposição é pensada, criada num contexto de curiosidade, numa relação de sensibilidade e de proximidade com os objetos de medicina. A intenção desta exposição é também acrescentar informação às peças das coleções do museu, vai-se construindo gestualmente num saber que se acumula e multiplica. “O mundo encontra-se, sem dúvida, num processo de musealização e todos nós desempenhamos nele o nosso papel. A memória total parece ser o objetivo. Será isto então o sonho de um arquivista levado ao extremo? Ou existirá talvez alguma outra em jogo neste desejo de trazer todos estes diversos passados para o presente!”[6] Subentende-se nesta exposição uma atitude de se repensar o papel da memória afetiva na construção da interseção entre a Arte e a Ciência, num confronto subtil com a memória intangível de carácter intemporal.  Pedro Jaime Vasconcelos desenha a exposição num gesto recatado, de uma consciência reminiscente da recriação da inversão da imagem que reflete o momento invertido, citando o artista, “inverter o que é direito? O que se vê ao lado… ou do outro lado.”

Quando espreitamos pelas Peep Boxes, encontramos interpretações poéticas de objetos científicos em diálogo com os objetos de medicina que se encontram dentro dos armários, particularmente com: Zincogravura, Bomba de tirar leite materno manual, Espelho de iluminação frontal com receita de solução para lavagem de ouvido/remoção do rolão de cerúmen do canal auditivo e Estetoscópio. Estas analogias, cruzam o conhecimento científico com o conhecimento artístico, vão ao encontro do que se pretende relativamente à perceção dos seus limites, das suas fronteiras. Numa valorização conjunta destes terrenos ténues numa confluência e numa coerência de experimentalismo num contexto, estético, ético e poético.

Com esta exposição a sala com objetos de medicina transforma-se no palco de Pedro Jaime Vasconcelos e as suas Peep Boxes, supostas máquinas fotográficas transformadas em caixas surpresas, protagonistas das suas histórias que evocam um passado, mas é no presente que são admiradas. “O prazer que obtemos com a representação do presente deve-se não apenas à beleza de que ele pode estar revestido, mas também à sua qualidade essencial de presente.”[7] Confirmando a intenção do artista da valorização da polissemia de estilos estéticos numa eternização do passado projetado numa impossibilidade de um presente pré-modernista.

 

Sofia Marçal

 

 

[1] Apropriação do título do filme de 1954 do realizador Alfred Hitchcock.

[2] Branca Edmeé Marques, (1899-1986), cientista portuguesa na área de física e química. Doutorou-se  em 1935, na Universidade de Paris sob orientação de Marie Curie.

[3] Fredric Jameson, in: Pós-modernismo, a logica cultural do capitalismo tardio, p37.

[4] Francesca Reece, in: Voyeur, It's not the way it looks, p.296.

[5] Truffaut, in: Hitchcock/Truffaut Entrevistas, p.216.

[6] Andreas Huyssen, in: Políticas de memória no nosso tempo, p.12.

[7] Charles Baudelaire, in: Pintor da vida moderna, p.851.