Passar para o conteúdo principal

Olho de vidro

Exposição de Arte e Ciência

Data

9 Maio - 7 Junho 2026

Local

Sala Azul | Museu

Exposição do artista Pedro Barassi

Notas em pintura e desenho produzidas durante o acompanhamento das atividades realizadas no Laboratório de Taxidermia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa, 2025-26. Este estudo contempla situações que ocorrem de forma espontânea durante o processo de montagem dos animais. A manipulação de matéria orgânica e sintética, na combinação de tecidos naturais sobre um esqueleto artificial, tem a finalidade de simular vida e movimento a partir de restos mortais. Os apontamentos realizados durante este percurso conduzido com rigor científico, permitem a derivação de assuntos que dialogam com ficção e especulações a respeito das particularidades que nos aproximam e nos distinguem das demais espécies. O olhar que atravessa a parte externa em direção ao núcleo do corpo, passa por uma gama de percepções contrastantes como fascínio e repulsa, identificação e estranhamento, descoberta e domínio. O desenvolvimento do tema orienta-se por reflexões a respeito do animal-artificial, que preserva características que invocam o instinto atávico do animal selvagem que foi um dia, ao mesmo tempo que repousa imóvel como a memória de uma imagem na iminência de desaparecer.

Curadoria: Sofia Marçal

Inauguração: 8 de maio, 18h00

 

CONVITE

 

*****

A metamorfose do animal-artificial

A exposição Olho de vidro do artista visual Pedro Barassi vem na sequência da sua residência artística no museu, onde o artista trabalhou diretamente com os taxidermistas, Pedro Andrade e Ana Campos. Esta experiência constitui-se num caminho de evolução, de dúvidas, de contratempos e de aprendizagem materializado numa reflexão artística e na criação desta exposição. Citando Pedro Barassi, “os apontamentos realizados durante este percurso conduzido com rigor científico, permitem a derivação de assuntos que dialogam com ficção e especulações a respeito das particularidades que nos aproximam e nos distinguem das demais espécies. O olhar que atravessa a parte externa em direção ao núcleo do corpo, passa por uma gama de perceções contrastantes como fascínio e repulsa, identificação e estranhamento, descoberta e domínio.” Esse caminho-experiência percorrido filosófica e materialmente, leva Pedro Barassi a repensar a possibilidade da matéria na sua diversidade e utilização prática num contexto museológico.

Durante a sua residência, Pedro Barassi foi desvendando alguns dos pequenos segredos do museu ao percorrer as suas reservas e os seus corredores, conforme escreve: “Caminho pelos extensos corredores em meia penumbra, os animais, em parte cobertos por tecidos sintéticos meio translúcidos, assumem formas fantasmagóricas que desafiam o tempo. Algumas das etiquetas de classificação das espécies informam datas seculares. Vejo os ossos saltarem de caixas de papelão e criaturas das mais diversas misturam-se em uma convivência silenciosa sobre estantes de metal. Pelagens e penugens arquivadas em armários assim como toda a sorte de conservas em formol. Centenas de pássaros e insetos repousam em gavetas como pequenos batalhões alinhados, classificados e etiquetados.” A exposição desenha-se numa investigação de reflexão e materializa-se num percurso intimista, por vezes solitário. “Quais os únicos caminhos da investigação que há para pensar: um que é, que não é para não ser, é caminho de confiança (pois acompanha a verdade); o outro que não é, que tem de não ser, esse te indico ser caminho em tudo ignoto, pois não poderás conhecer o não ser, não é possível, nem mostrá-lo (…) pois o mesmo é pensar e ser.”[1] Este caminho elaborado  por Pedro Barassi tem a intenção de reconstruir uma ficção científica a partir dos seus trabalhos, numa lógica pós-modernista, numa interligação do naturalismo com  o idealismo  incorporado numa tecnologia de futuro.

A exposição Olho de vidro é composta por pintura, desenho e escultura. Estes trabalhos espelham e evidenciam na sua materialidade pictórica numa metamorfose constante assim como os animais taxidermizados, na própria metamorfose da obra artística. “A verdade, porém, é que, com o avanço da técnica, os objetos criados substituem cada vez mais os objetos naturais, mas aparecem também como objetos naturais aos olhos das novas gerações. É a história de sua produção que distingue a natureza herdeira do natural e a que provém do artifício.”[2] Os dois objetos artísticos escultóricos expostos são construídos numa composição de perceção sintética de mediação do natural ligado à máquina, originando uma criação quase divina.  

A narrativa poética que Pedro Barassi desenvolve na exposição apresenta-se deliberadamente no campo do pragmatismo estético virtual e artificial. “Como pode a arte falar a linguagem de uma experiência radicalmente diferente, como pode ela representar a diferença qualitativa?”[3] são questões levantadas por Herbert Marcuse e que podem em parte ser respondidas nesta exposição. Torna-se evidente que é possível contemplar os trabalhos expostos através do olhar da ficção e da imaginação, numa ligação direta às coleções naturalistas do museu.

A biologia através das suas coleções museológicas é o fio condutor da exposição, onde Pedro Barassi se inspirou, se expressou, se expandiu e se superou.  Todos os trabalhos que compõem a exposição Olho de vidro foram realizados no museu num contexto museográfico, num ambiente que proporcionou esta exposição de arte e ciência. “Em determinado momento pensei que a verdadeira biologia é uma teologia. Agora penso que Deus ofereceu flores ao ser humano para aliviar um pouco a sua irrefreável violência.”[4] A exposição representa uma realidade revelada de uma manipulação tangível do animal-artificial, do animal-animal e do artificial-artificial, num ato de consciência de criação artística. Pedro Barassi manipula o material como ação crítica ao questionar o impacto do próprio fazer artístico num museu de história natural e da ciência.

Sofia Marçal

 

[1] José Trindade Santos, in: Da natureza de Parménides, p. 8.

[2] Milton Santos, in: Metamorfoses do espaço habitado – Fundamentos teórico e metodológico da geografia, p. 27

[3] Herbert Marcuse, in: A dimensão estética, p.43.

[4] Byung-Chil Han, in: A tonalidade do pensamento, p.35.