Scrollpainting 153 - caput mortuum metamorphosis
Data
Local
Exposição da artista Elisabeth Sonneck
O trabalho de Elisabeth Sonneck aborda de um modo geral, uma relação com a ciência, em particular com a química: explora a relação entre as substâncias, as suas composições e, sobretudo, as reações entre si. Assim, como a investigação científica faz parte da sua reflexão e método de investigação, a artista tem o propósito de revelar os condicionalismos no seu trabalho, as pinturas mostram diretamente o seu processo físico-temporal de criação. As instalações são equilibradas com precisão física e sem defesas ocultas no local.
Curadoria: Sofia Marçal
Inauguração: 9 de junho, 18h00
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O gesto da cor
A exposição Scrollpainting153 caput mortuum metamorphosis da artista visual alemã Elisabeth Sonneck, apresenta-se como site-specific e expressa-se no espaço numa dualidade de construção / desconstrução metamórfica, camaleónica que se vai adaptando ao espaço e o espaço a ela, neste caso ao Laboratório de Química Analítica. A volatilidade dos trabalhos é apresentada não com a intenção de dominar os materiais, mas sim dar-lhes liberdade e autonomia no espaço e no tempo, onde simbolicamente se comportam. Citando Elisabeth Sonneck, “as relações físicas da obra tornam-se evidentes: fios verde-néon e objetos encontrados no espaço urbano, que servem de contrapesos, formam parte integrante das instalações precisamente equilibradas. Estes objetos encontrados, muitas vezes partidos e não processados, e os restos do quotidiano contrastam com a pintura – mas, ao mesmo tempo, os dois formam uma simbiose funcional. Deliberadamente, evito dominar os materiais ou o espaço: tal como não corto, dobro, amasso nem rasgo o papel, instalo obras sem perfurar paredes com pregos ou parafusos, confiando, em vez disso, unicamente em gestos físicos que interagem com as condições específicas do local, como caixilhos de janelas, beirais, fissuras ou buracos na parede e outros elementos marginais. Para as próprias formas de papel, utilizo a tensão inerente ao material, proveniente da sua produção industrial.” Numa perspetiva de inclusão de objetos do cotidiano num exercício contínuo de intermaterialidade em conexão de integração de materiais pré-existentes Elisabeth Sonneck, atribui-lhes um valor sentimental ao criar esta instalação artística.
A exposição é a memória do gesto da artista, gestos criados para não perdurarem no tempo, mas consciencializados e fixados efemeramente no espaço. É a perceção dada pela cor, como compreensão do ponto de vista mais conceptual da linguagem. Existe uma convicção forte daquilo que são as marcas, da própria materialidade, onde a cor se impõe. “Qualquer que seja a afetividade que dê cor a um espaço, seja ela triste ou pesada, desde que seja expressa, poeticamente expressa, a tristeza tempera-se, o peso alivia-se.”[1] Espaço-tempo-matéria-cor, numa fluidez material consistente e coerente.
Antes da suspensão das peças, estas são dobradas e enroladas numa metodologia muito peculiar de ação e reação, num ato intimista de revelação dos trabalhos artísticos. Onde a criação artística de Elisabeth Sonneck, se desenvolve na interação entre o fazer e o idealizar como vão ser expostas.
Nesta narrativa expositiva, numa criação de ritmos naturais, onde os trabalhos artísticos instalados em equilíbrio desenham-se num diálogo material de cor e textura antecedidos de uma sucessão de gestos que a artista enaltece e lhe dá consistência formal e artística. Citando a artista, “desde 2006, têm sido criadas instalações temporárias e de frágil equilíbrio, em que o próprio espaço se torna a força motriz e cocriador da situação. A mesma folha de papel pode estar deitada, pendurada, encostada ou de pé em posições sempre mutáveis, em lugares e momentos diferentes…em vez de criar formas de definitividade fixa, a metamorfose, a transformação e a fluidez são os princípios que orientam o meu trabalho.” Scrollpainting153 caput mortuum metamorphosis desenha-se entre o peso e a leveza numa relação concetual efémera em cada espaço que vai ocupando.
A exposição construi-se numa mistura de memórias passadas de outras exposições, estes gestos que se repetem sem se repetirem, uma vez que o ato da criação artística é irrepetível. “Fechou os olhos um instante, permitindo-se o nascimento de um gesto ou de uma frase sem lógica. (…) Às vezes, quando por um mecanismo especial, do mesmo modo como se desliza para o sono, fechava as portas da consciência e se deixava agir ou falar, recebia surpreendida — porque a perceção do gesto vinha-lhe apenas no momento de sua execução”[2] A importância da cor do gesto, numa harmonia espacial, onde Elisabeth Sonneck, procura as inúmeras possibilidades de expandir as suas telas coloridas no branco asséptico do Laboratório, agora um lugar onde as cores dançam e se encontram com o gestos.
Sofia Marçal
[1] Gaston Bachelard, in: A Poética do Espaço, p. 146.
[2] Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p42.