Teogonia II: O Fogo e o Mar
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Exposição dos artistas Manuel Valente Alves e Carlota Mantero
Projetada para um lugar que é um símbolo do fazer científico, o Laboratório de Química Analítica, esta instalação propõe aos visitantes, uma experiência de visualidade e de pensamento sobre a ideia de ultrapassar as fronteiras, ligando a contemplação estética à reflexão sobre a indeterminação das origens e dos fins com que a ciência e a arte se debatem. Como dizia Goethe: “Todas as existências limitadas estão no infinito, mas não são partes do infinito: participam, isso sim, da infinitude”.
Curadoria: Sofia Marçal
Inauguração: 4 de setembro, 18h00
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Quando o Fogo encontra a Água
Os artistas visuais Carlota Mantero e Manuel Valente Alves, com percursos artísticos distintos, encontram-se nesta exposição para celebrarem a Teogonia II: O Fogo e o Mar. A sua cumplicidade transcende o seu próprio trabalho individual e perspetiva-se na capacidade de sentirem, de racionalizarem e de criarem um cenário aparentemente tenso, mas devido à harmonia dos dois elementos, o Fogo e a Água que convergem, e não se limitam, as obras expostas constroem um diálogo intensamente envolvente, sedutor e poético, entre si, sob o fio condutor da filosofia da natureza, e com o espaço da exposição, um lugar da memória da ciência moderna.
O conceito desta exposição, inspirado no texto Teogonia de Hesíodo,[1] tem dois componentes, o primeiro o Céu e a Terra[2], Teogonia I, anteriormente apresentado na Galeria Sá da Costa, e agora o Fogo e o Mar, Teogonia II. Esclareça-se, no entanto, que esta exposição não tem uma relação textual com a poesia do autor grego e mitólogo clássico, mas metafórica. Aqui, a metáfora “Teogonia” estendeu-se como ideia de trabalho, tendo os artistas transcendido, na representação simbólica, os quatro elementos fundamentais, a ponto de se referirem à água como “mar”, sem qualquer marca helénica, e ao fogo com uma forte representação indo-europeia (hindu) que antecede em muito tempo a “Teogonia” de Hesíodo. Assim, as obras dos dois artistas apresentam-se como “transcendências” temáticas, que viajam na cultura e no tempo, mas que não se aprisionam de forma ocidentalizante à Teogonia de Hesíodo. Na obra destes dois artistas, não há heróis, deuses, apenas testemunhas da água e do fogo. Como explica Manuel Valente Alves, “a relação das peças que compõem a exposição é eminentemente poética e foram propositadamente executadas utilizando técnicas diferentes. O conceito expande-se na ideia do mar e também do ar, criando uma indefinição entre o céu e a terra. Aqui o azul e o branco permeiam o espaço e dialogam com as cores do fogo das fotografias, nas caixas de luz, e da terra, nas esculturas em cerâmica.”
Carlota Mantero, apresenta três caixas de luz com fotografias que representam o fogo, numa metáfora idílica de conforto e acolhimento. Citando a artista, “quando se toma consciência da sacralidade do elemento fogo, tem-se respeito por ele. Nas minhas fotografias vejo seres que dialogam, imagens que emergem do fogo proferindo sabedoria.”
Oito esculturas em cerâmica, ferro e madeira, estão instalados no centro da sala e em cima das bancadas. Representam torres, a razão desta representação, segundo Carlota Mantero, está no pensamento de Carl Jung, que construiu uma Torre para estar mais perto de Deus e da sua mulher. “Na minha torre, em Bollingen, vive-se como há séculos."[3] No caso da artista é para estar mais perto de Deus e de si própria. Para se conseguir ser absoluto tem que se percorrer um caminho interior, de humildade e de aprendizagem. Como imagem para sermos felizes e plenos temos de subir, metaforicamente a um lugar alto. Recordo Petrarca, no século XIV: “Hoje, simplesmente motivado pelo desejo de estar num lugar célebre pela sua altura, subi ao monte mais alto desta região, que imerecidamente é chamado de Ventoso. Há muitos anos que eu tinha em mente fazê-lo; (…) desde a minha infância vivi nesta região, sempre o tive ao meu alcance este monte que se vê de todos os lugares. Finalmente, tive o impulso de fazer o que todos os dias me tinha comprometido.”[4] Todo o trabalho de Carlota Mantero tem um cariz espiritual e simbólico. Nas esculturas há vestígios de incenso, de cinza, madeira…. “E depois, de repente, o fogo se apagava e não restava senão um pouco de cinza morna: às nossas costas os países incendiados são tantos que já nem podemos contá-los mais. Agora nada queima à nossa volta.”[5]
Manuel Valente Alves apresenta nove pinturas em acrílico sobre tela, construindo um caminho desde a hotte, onde se encontram as duas pinturas que dão o mote a estes trabalhos até ao outro lado do laboratório. Matisse dizia que “A obra é a emanação, a projeção de si mesmo. Os meus desenhos e as minhas pinturas são pedaços de mim mesmo. O seu conjunto constitui Henri Matisse. A obra representa, expressa, perpetua. Poderia também dizer que meus desenhos e as minhas pinturas são meus verdadeiros filhos. Quando o artista morre ela divide-se.”[6] Os trabalhos aqui apresentados por Valente Alves são fragmentos de um universo muito maior que se deixaram cativar e caminharam para a exposição, para um lugar efémero, o Laboratório de Química Analítica.
Manuel Valente Alves, com as suas pinturas poéticas que se impõem na sala, onde o espaço se dilata e encontra o tempo, a água o mar, e o azul se torna branco contagiado pelo asséptico laboratório, parece que vem acalmar a agitação do Fogo representando nas fotografias e apaziguar as esculturas de Carlota Mantero.
Entre olhar para o Mar, sentir a Água e experimentar o Fogo, Carlota Mantero e Manuel Valente Alves criam as suas obras num diálogo permanente entre a escultura, a fotografia e a pintura, fazem parte de uma cosmologia que tem como horizonte a harmonia cósmica, o respeito pelo equilíbrio da natureza, das coisas e dos seres, numa perspetiva humanista. O propósito dos artistas é aliarem-se, problematizarem e compreenderem o que a natureza e a vida lhes oferece em cada experiência artística, como pessoas e cidadãos.
Sofia Marçal
[1]Também conhecido por Genealogia dos Deuses, é um poema mitológico em 1022 versos hexâmetros escrito por no século VIII-VII a.C., no qual o narrador é o próprio poeta. https://pt.wikipedia.org/wiki/Teogonia.
[2] Exposição Teogonia I:O Ar e a Terra, foi apresentada na Galeria Sá da Costa de 1 a 29 de março de 2025.
[3] Carl G. Jung, in: Memórias, Sonhos, Reflexões.
[4] Francesco Petrarca, in: Subida ao monte ventoso, p.35.
[5] Natalia Ginzburg in: As pequenas virtudes. p.87.
[6]Henri Matisse, in: Paroles d’artiste, p.48.