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Transplating

Exposição de Arte e Ciência

Data

24 Setembro - 21 Outubro 2025

Local

Sala Azul | Museu

Exposição da artista visual Mónica de Miranda

A exposição é uma vídeo-instalação, composta por um vídeo e por terra. Trata-se de uma vídeo-performance que se inicia no Jardim Botânico de Lisboa e que explora o tema Transplante. O vídeo volta ao lugar onde nasceu em virtude de ter sido produzido e filmado no Jardim Botânico e no Jardim Botânico Tropical. Mónica de Miranda gosta de pensar no lugar onde as coisas nascem e são criadas e ter presente o público que faz parte desses lugares.

Curadoria: Sofia Marçal

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Em busca do tempo perdido[1]

A exposição Transplanting da artista visual Mónica de Miranda é uma vídeo-instalação, composta por um vídeo e por terra. Trata-se de uma vídeo-performance que se inicia no Jardim Botânico de Lisboa e que explora o tema Transplante. E como nos diz a artista “é um filme de vídeo performativo que analisa a ligação entre o movimento das plantas e dos corpos no contexto pós-colonial contemporâneo. Passado no Jardim Botânico de Lisboa e em jardins urbanos construídos por comunidades migrantes africanas, o filme reflete sobre a exploração e a deslocação colonial. Inicia-se com o Jardim Botânico, representando o transplante forçado de plantas e corpos diaspórios devido ao colonialismo. A narrativa transita depois para a floresta, um refúgio histórico para revolucionários e indivíduos marginalizados, um espaço de resistência e revolução, longe das imposições dos poderes coloniais. Por fim, o filme culmina em jardins urbanos, que espelham os Jardins Crioulos como espaços de resistência cultural e de pertença para corpos migrantes e dissidentes. Transplante entrelaça intrincadamente as histórias interligadas dos humanos e da natureza, destacando as suas experiências partilhadas de deslocação e adaptação.”[2] O vídeo ao ser apresentado na Sala Azul, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, volta ao lugar onde nasceu em virtude de ter sido produzido e filmado no Jardim Botânico e no Jardim Botânico Tropical. Mónica de Miranda gosta de pensar no lugar onde as coisas nascem e são criadas e ter presente o público que faz parte desses lugares.

O elemento terra é fundamental nesta exposição, faz parte integrante da vídeo-instalação, onde a artista se relaciona essencialmente com a ideia da terra como lugar onde se planta e se transplanta, essa matéria obscura que é criadora e geradora e o modo como o Homem se apropria dela. “Sentir a Terra, sentir o cheiro, e podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer.”[3]

Transplanting não deixa de ser uma representação artística de contestação onde Mónica de Miranda reflete metaforicamente sobre a estética colonial e o seu carácter contemporâneo. Questiona também a ideia de modernidade, aqui desconstruída, onde a narrativa se estrutura numa trama de referências, deslocações de personagens que aparecem e desaparecem de encontros e desencontros numa dança de reposicionamentos da frames da Natureza, que culminam numa edificação que se impõe e compete com a vegetação luxuriante do filme.

Mónica de Miranda deslocou-se várias vezes ao museu, não só para realizar o vídeo no Jardim, mas também para conhecer as coleções naturalistas, onde trabalhou com o curador de insetos Roberto Keller e com a Domitila Brocas do Banco de Sementes. A exposição está ainda em projeto de investigação, a artista vai continuar a sua pesquisa e reflexão à volta destes arquivos científicos do museu, da coleção viva dos jardins e da coleção morta do Banco de Sementes.

Tendo em conta também o pensamento de Hannah Arendt, “tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante.”[4] Mónica de Miranda com esta vídeo-instalação pretende questionar e evidenciar a condição humana débil que se perpetua há demasiado tempo e abrir caminho a outras realidades, como esperança e motivação para se quebrarem os condicionamentos pré-existentes.

 

“Ao lado da terra cavada, os sonhos não têm limite.”[5]

 

Sofia Marçal

 

 

[1]Apropriação do título do livro de Marcel Proust, 1º edição 1913.

[2] A exposição começou por ser pensada para a Bienal de Veneza 2024, onde a artista expos no Pavilhão de Portugal, no Palazzo Franchetti sendo a nossa representante oficial.

[3] Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p.94.

[4] Hannah Arendt, in: A condição humana, p.17.

[5] Gaston Bachelard, in: A Poética do Espaço, p.209.