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un-re-seen

Exposição de Arte e Ciência

Data

13 Fevereiro - 29 Março 2026

Local

Museu

Exposição dos artistas Amaia Molinet, Charmain de Heij, Claudio Beorchia e Paul Nataraj
 

O Projeto Europeu Contested Desires: Constructive Dialogues traz quatro artistas internacionais para uma residência e exposição coletivas.

Curadoria: Sofia Marçal

 

Inauguração: 12 fevereiro, 18h00

 

Exhibition by artists Amaia Molinet, Charmain de Heij, Claudio Beorchia and Paul Nataraj

The European project Contested Desires: Constructive Dialogues brings together four international artists for a residency and a collective exhibition.

Curated by: Sofia Marçal

Opening: 12 February, 6:00 pm

 

***

Memórias passadas, memórias futuras
 

Os artistas visuais, Amaia Molinet  Charmaine de Heij, Claudio Beorchia e Paul Nataraj, criaram a exposição un-re-seen,  na sequência da sua residência artística no museu, no âmbito do projeto Contested Desires. Diálogos Construtivos (CDCD).[1] A exposição realiza-se num antigo laboratório de geologia, o Laboratório dos Pirotécnicos.

Os trabalhos apresentados, fotografia, vídeo e instalação sonora, refletem uma preocupação dos artistas pela herança colonial e as suas implicações na sociedade atual, mas numa ótica artística contemporânea. Num caminho de convergência e de cruzar visões estéticas, estes quatro projetos individuais construídos na procura de atributos nas suas divergências e ambiguidades, numa retórica de aproximação. “Desafiam a nossa apatia ética e a nossa indiferença moral; mas também mostram, além da dúvida razoável, que a ideia da procura da vida boa e da felicidade como tema autorreferenciado, que cada indivíduo deveria realizar por sua própria conta, é mal concebida; que a esperança de que uma pessoa possa ‘fazê-lo sozinha’ é um erro fatal que desafia o próprio objetivo da preocupação e do cuidado consigo mesmo. Não podemos nos aproximar desse objetivo enquanto nos distanciamos dos infortúnios das outras pessoas.”[2] Nesta convergência poética nascem estes projetos numa apropriação metodológica e de preocupação coletiva, mas não perdendo a individualidade de cada trabalho artístico ao captar o autodesenvolvimento associado à contemporaneidade. “O nosso tempo, o presente, não é, de fato, apenas o mais distante: não pode em nenhum caso nos alcançar.”[3] Na exposição un-re-seen, coabitam vários tempos e os espaços entrecruzam-se para criarem narrativas de uma enorme consciência social.

Amaia Molinet constrói para esta exposição uma instalação de fotografias colocada no armário da sala. O seu trabalho artístico insere-se numa visão contemporânea, numa lógica representativa simbólica e metafórica que reflete sobre o significado cultural das aves exóticas que aprenderam a viver em liberdade nas cidades. A artista cria uma metáfora sobre as mutações ambientais a partir de um contexto colonial, direcionado para o periquito-monge (Myiopsitta monachus) existente na Península Ibérica.

O trabalho apresentado posiciona-se entre a representação da Natureza e da estética, numa apropriação pictórica enquanto linguagem despojada, nos limites da critica social. Citando a artista, “esta ave foi introduzida em Espanha há décadas como animal de estimação exótico e, atualmente, é considerada uma espécie invasora em capitais como Madrid e Barcelona, onde está a ser morta. Uma espécie que foi trazida de um território colonizado para a terra do seu colonizador está a espalhar-se, por uma questão de justiça poética.”

Completa a exposição uma carta enviada pela artista aos periquitos-monge. Esta Carta escrita com uma ingenuidade emocional entre o pragmatismo e o abstrato, numa vertente analítica, mas sensível. É nesse equilíbrio de construção, nesse entretecimento que se gera o conhecimento sensível e precioso para a compreensão deste trabalho artístico.

“Vós, aves, que dos Céus até as portas
Subis trinando, seu louvor excelso
Levai nas asas e no etéreo canto!”[4]

 

Paul Nataraj apresenta a instalação sonora, Partitura Solidária da Boa Esperança, uma partitura de 12 notas. Este nome faz referência ao cabo na África do Sul que o navegador português Bartolomeu Dias o transpôs em 1488, no entanto este trabalho artístico faz referência à viagem do navegador português Vaco da Gama à India, em 1847. Citando o artista, “Esta viagem, portanto, teve profundas repercussões na formação das estruturas das nossas relações globais contemporâneas, tanto históricas como atuais. É uma viagem em cujo rasto ressoam os nossos atuais nacionalismos destrutivos. Traduzi a jornada de Vasco da Gama numa partitura de 12 notas.”

Esta obra baseia-se em possibilidades, e não em instruções, e está aberta a todas as vozes e formas sonoras. O seu processo procura desfazer as restrições excludentes do pensamento colonial. A peça coloca estas diversas interpretações em diálogo umas com as outras, bem como com a própria interpretação do artista. Inclui também outros sons e gravações inspirados pelo eu tempo em Lisboa e pelas coleções do museu.

Paul Nataraj partilha esta sua partitura e num ato de magnanimidade convida as pessoas a interpreta-la, a terem a sua opinião, criando-se assim a possibilidade de se gerar uma energia coletiva. “A arte moderna, contestando os valores ‘clássicos’ de ‘acabado’ e ‘definido’, propõe uma obra indefinida e plurívoca, aberta, verdadeira rosa de resultados possíveis, regida e governada pelas leis que regem e governam o mundo físico no qual estamos inseridos.”[5]

Charmaine de Heij, apresenta um conjunto de fotografias numa criação simbólica e poética, mas de grande frieza e em contraste com o mundo ideal, numa metáfora onde o cor-de-rosa é dominante, demonstrando uma ironia que nos remete para a irreversibilidade da leitura destes trabalhos artísticos. “Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica.”[6] Charmaine trabalha com coleções de museus, arquivos e imagens históricas, onde desafia as narrativas visuais dominantes através de estratégias como intervenções visuais, escrita e participação. Numa narrativa de demonstração de como o poder colonial persiste nas imagens, na linguagem e nas estruturas institucionais, ao mesmo tempo que incentiva os espectadores a questionarem-se: O que fez o olhar?

Também se pode visualizar o vídeo, O que aconteceria se olhássemos para trás?, onde a artista confronta a contínua maneira de como o olhar ocidental e colonial enquadrou, controlou e objetificou os corpos das mulheres negras. Como nos diz Charmaine, “o vídeo funciona como ponto de partida para a obra e para as minhas ideias.”

Charmaine de Heij, com um pensamento estruturado, materializado nestes trabalhos artísticos de forte contestação social, refletem as marcas profundas de identidades coletivas e individuais nas sociedades pós-coloniais, onde segundo Bauman, “a colonização permitiu que as premonições de Kant ficassem engavetadas. Mas também fizeram com que parecessem, quando finalmente se abriu a gaveta, uma profecia do apocalipse em lugar da alegre utopia pretendida pelo filósofo. A visão de Kant agora parece assim porque, devido à enganadora abundância de ‘terras de ninguém’, no curso desses dois séculos nada tinha de ser feito, e, portanto, não o foi, para preparar a humanidade para a revelação da definitiva plenitude do mundo.”[7]

Claudio Beorchia, apresenta a série fotográfica escalas, onde o artista reflete sobre o papel das escalas na fotografia arqueológica. “O geómetra vê exatamente a mesma coisa em duas figuras semelhantes desenhadas em escalas diferentes. Planos de casas em escalas reduzidas não implicam nenhum dos problemas que derivam de uma filosofia da imaginação. Não temos sequer de colocar-nos no plano geral da representação, ainda que nesse plano haja grande interesse em estudar a fenomenologia da semelhança. O nosso estudo deve ser especificado como provindo seguramente da imaginação.”[8]

Claudio Beorchia, problematiza a ideia de se retirar o achado arqueológico das imagens e deixar apenas a escala, como se o artefacto tivesse desaparecido. O vazio e o silêncio são valorizados pelo artista ao criar o seu objeto artístico, difere do objeto real, numa aproximação metafórica. Silencia, mas humaniza numa ação de arte expandida, onde o espaço vazio do ponto de vista documental prevalece para dar lugar à criação da fotografia artística e não documental.

As fotografias estão dispostas em dois plintos, citando o artista, “foi isso que fiz nas duas séries fotográficas que apresento na exposição. Trata-se de imagens das coleções do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, e do Instituto Italiano para África e Oriente, em Roma. As imagens de Roma referem-se às escavações em Cirene, na Líbia, promovidas pelo governo italiano durante o fascismo.”

Este propósito de narrativa fotográfica também procura promover segundo Claudio Beorchia, a reflexão sobre as relações desrespeitosas e presunçosas que estabelecemos com o património cultural proveniente de outros tempos e de outras civilizações.

Os quatro artistas, Amaia Molinet, Charmaine de Heij, Claudio Beorchia e Paul Nataraj, realizam esta exposição coletiva numa abordagem critica, desafiadora e poética, mas também numa perspetiva de esperança e um acreditar num futuro mais justo, “a esperança não é o mesmo que otimismo. Não é a convicção de que algo vai correr bem. Mas a certeza de que algo tem sentido. Independentemente de como corra.”[9] A criação e a materialização destes trabalhos artísticos revelam uma pesquisa que pode ocasionar outras possibilidades de investigação e de criação artística. O ponto de intersecção entre a Arte e a Ciência é a própria transformação teórica e prática da arte. Através da arte também se pode consciencializar o público para os problemas sociais, neste caso coloniais, situando-se entre as memórias passadas e as memórias futuras.

 

Sofia Marçal

 

 

[1] É um programa internacional de Arte e Património Colonial que reúne artistas de vários países em residências, exposições e workshops, promovendo a troca de conhecimentos e experiências. Cofinanciado pela União Europeia. 2024-2026.

[2] Zygmunt Bauman, in: Danos Colaterais – Desigualdades sociais numa era global, p.58.

[3] Giorgio Agamben, in: O que é o contemporâneo? e outros ensaios, p.65.

[4] John Milton, in: Paraíso Perdido, p.158.

[5] Umberto Eco, in: Obra aberta, Forma e Forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas, p.12.

[6] Clarice Lispector, in: Água viva, p.31.

[7] Zygmunt Bauman, in: Amor líquido - Sobre a fragilidade dos laços humanos, p.112.

[8] Gaston Bachelard, in: A Poética do espaço, p.112.

[9] Byung Chul Han, in: A tonalidade do pensamento, p.119.

 

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