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trilobite

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Isabelinia glabrata: uma trilobite pioneira da paleontologia portuguesa que também viveu em Valongo.

Sim, existiram trilobites em Valongo. Muitas. Mas as mais conhecidas viveram há cerca de 460 milhões de anos (Ma), durante a Época do Ordovícico Médio, quando as ardósias que hoje afloram e são exploradas naquela região eram sedimentos argilosos em deposição no fundo do mar onde habitavam as trilobites, desta da zona costeira até cerca de 300 metros de profundidade.

Designada originalmente como Ogygia glabrata pelo paleontólogo John William Salter em 1853, esta é uma dessas trilobites notáveis por ter sido a primeira espécie de trilobite definida em Portugal, isto é, estabelecida como espécie nova com base em material português. Este material, proveniente do Ordovícico Médio do Buçaco, foi enviado ao paleontólogo inglês pelo nosso pioneiro geólogo Carlos Ribeiro.

O nome glabrata (do latim glaber, que significa “liso”) faz alusão à morfologia suave do pigídio (única peça conhecida por Salter). Mais de um século depois da formalização da espécie, a mesma foi escolhida como espécie-tipo de um novo género, Isabelinia, nomeado pela paleontóloga espanhola Isabel Rábano em homenagem à sua filha Isabel. Deste modo, aquela que é a primeira espécie de trilobite definida em Portugal é hoje conhecida como Isabelinia glabrata. Aqui apresentamos um exemplar completo desta espécie proveniente de Valongo.

As trilobites possuíam um exoesqueleto quitinoso que, na zona dorsal, era impregnado de carbonato de cálcio. Cada indivíduo originava numerosos fósseis uma vez que aconteciam várias mudas da carapaça de forma a adaptar-se ao crescimento do animal. A designação Trilobite deriva do facto do exoesqueleto apresentar, transversalmente, três lobos, um central (ráquis) e dois laterais (pleuras). Porém, longitudinalmente, diferenciam-se também três partes: um cefalão, na parte anterior do corpo e onde se situavam as peças bucais e os olhos (foram os primeiros animais a desenvolver olhos complexos); um tórax na zona intermédia, constituído por vários segmentos (de 2 a mais de 20) articulados entre si; e um pigídio, na parte posterior da carapaça.

As trilobites são artrópodes marinhos extintos, que constituem a Classe Trilobita. Os seus fósseis são muito característicos da Era do Paleozoico (entre cerca de 539 e 252 Ma). A maioria era bentónica (vivia no fundo do mar, nos bentos) e essencialmente detritívora, mas havia algumas trilobites que nadavam e, eventualmente, predavam pequenos animais. Durante o Câmbrico (539 a 485 Ma), ocupavam posições elevadas na cadeia alimentar, mas com a evolução de outras formas de vida, rapidamente passaram a servir de presa a cefalópodes e outros predadores. São fósseis fundamentais para datar rochas do Paleozoico dada a sua abundância, dispersão geográfica e rápida evolução.

 

Isabelinia glabrata: a pioneering trilobite of Portuguese paleontology that also lived in Valongo

Yes, trilobites did exist in Valongo. Many of them. But the best-known ones lived about 460 million years ago (Mya), during the Middle Ordovician Epoch, when the slates that now outcrop and are exploited in that region were clay sediments being deposited on the seafloor, where the trilobites lived, from the coastal zone down to about 300 meters in depth.

Originally designated as Ogygia glabrata by the paleontologist John William Salter in 1853, this is one of those trilobites and notable for being the first trilobite species defined in Portugal, that is, established as a new species based on Portuguese material. This material, from the Middle Ordovician of Buçaco, was sent to the English paleontologist by our pioneering geologist Carlos Ribeiro.

The name glabrata (from the Latin glaber, meaning “smooth”) refers to the smooth morphology of the pygidium (the only part known by Salter). More than a century after the species was formalized, it was chosen as the type species of a new genus, Isabelinia, named by the Spanish paleontologist Isabel Rábano in honor of her daughter Isabel. In this way, what was the first trilobite species defined in Portugal is now known as Isabelinia glabrata. Here we present a complete specimen of this species from Valongo.

Trilobites had a chitinous exoskeleton that, on the dorsal side, was impregnated with calcium carbonate. Each individual produced numerous fossils because they molted their carapace several times to accommodate growth. The term trilobite comes from the fact that the exoskeleton is divided transversely into three lobes: a central lobe (rachis) and two lateral lobes (pleurae). Longitudinally, it is also divided into three parts: a cephalon at the front of the body, which contained the mouthparts and eyes (they were the first animals to develop complex eyes); a thorax in the middle, composed of multiple articulated segments (from 2 to more than 20); and a pygidium at the rear of the carapace.

Trilobites are extinct marine arthropods belonging to the class Trilobita. Their fossils are very characteristic of the Paleozoic Era (approximately 539 to 252 Ma). Most were benthic (living on the seafloor, in the benthos) and primarily detritivorous, but some trilobites swam and occasionally preyed on small animals. During the Cambrian (539 to 485 Ma), they occupied high positions in the food chain, but with the evolution of other life forms, they quickly became prey for cephalopods and other predators. They are key fossils for dating Paleozoic rocks due to their abundance, wide geographic distribution, and rapid evolution.

 

Legenda 1: Isabelinia glabrata (Salter, 1853) – molde interno do exosqueleto.  Nº inventário: MNHN/UL.TP. 0381. Proveniente de Valongo, distrito do Porto, Portugal. Escala: 5cm | Caption 1: Isabelinia glabrata (Salter, 1853) – internal mold of the exoskeleton. Inventory no.: MNHN/UL.TP. 0381. From Valongo, Porto district, Portugal. Scale bar: 5cm


 

 

 

 

 

Legenda 2: Desenho esquemático de um exoesqueleto de trilobite (adaptado de Gon III, 2009). | Caption 2: Schematic drawing of a trilobite exoskeleton (adapted from Gon III, 2009).

 

 

 

Texto de | Text by: Sofia Pereira (Centro de Geociências e Departamento de Ciências da Terra, Universidade de Coimbra), Liliana Póvoas (Museu Nacional de História Natural e da Ciência) e Pedro Mocho (Instituto Dom Luiz, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e Museu Nacional de História Natural e da Ciência)

Fotografia de | Photo by: Pedro Mocho


 
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