Objeto do mês
O objeto deste mês é um prospeto de Cuiabá, Brasil, datado do século XVIII, elaborado aquando da Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira à América Portuguesa, entre 1783 e 1792. As Viagens Filosóficas consistiam em expedições científicas com vista à descrição física e económica dos territórios ultramarinos. Estas viagens foram idealizadas por Domingos Vandelli, mentor da reforma da Universidade de Coimbra, e tinham o objetivo de inventariar os recursos e as matérias-primas minerais, vegetais e animais, com a exploração e utilização económica das mesmas em mente[1]. As Viagens Filosóficas envolviam também um âmbito político e demonstravam o desejo e empenho da coroa portuguesa em implementar em Portugal incentivos ao desenvolvimento científico[2]. Foi também este o caso da expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira.
Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), natural da Baía, formou-se na Universidade de Coimbra aos 22 anos, doutorando-se em Filosofia Natural. Depois, foi trabalhar para o Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda e tornou-se membro correspondente da Academia Real das Ciências[3]. O naturalista foi escolhido para comandar a Viagem Filosófica à América do Sul, empreendimento financiado pela Secretaria de Estado da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, sob a égide do ministro e secretário de estado Martinho de Melo e Castro. A expedição durou entre 1783 e 1792 e percorreu as capitanias do Grão-Pará, São José do Rio Negro e Mato Grosso, partindo da cidade de Belém e atravessando a Amazónia e o Pantanal, através da bacia hidrográfica do Amazonas[4]. Para além de Alexandre Rodrigues Ferreira, a expedição contou também com os desenhadores José Joaquim Freire e Joaquim José Codina e com o jardineiro botânico Agostinho Joaquim do Cabo[5]. Uma vez no Brasil, os membros da Viagem Filosófica contaram também com o auxílio de inúmeros indígenas, mestiços e negros escravos e forros[6]. Segundo Ângela Domingues, a viagem de Alexandre Rodrigues Ferreira (o único de quatro cientistas inicialmente previstos a partir) tinha como objetivos “recolher, classificar e preparar as produções naturais com vista à sua remessa para Lisboa, de incrementar a agricultura e elaborar ofícios e relatórios com vista ao retrato geográfico, económico, político, demográfico e etnográfico da Amazónia”[7].
A região de Cuiabá, no Mato Grosso, foi primeiro explorada por bandeirantes no final do século XVII. Após a descoberta de ouro, em 1722, desenvolveu-se uma povoação que cresceu rapidamente e em 1727 seria elevada a vila com o nome de Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.
PROSPECTUS OF THE TOWN OF BOM JESUS DE CUIABÁ
This month's “object of the month” is a prospectus of Cuiabá, Brazil, dating from the 18th century, prepared during Alexandre Rodrigues Ferreira's Viagem Filosófica (Philosophical Journey) to Portuguese America, between 1783 and 1792. The Philosophical Journeys consisted of scientific expeditions aimed at the physical and economic description of overseas territories. These journeys were conceived by Domingos Vandelli, mentor of the reform of the University of Coimbra, and aimed to inventory mineral, vegetable and animal resources and raw materials, with their economic exploitation and use in mind. The Philosophical Journeys also involved a political scope and demonstrated the desire and commitment of the Portuguese crown to implement incentives for scientific development in Portugal. This was also the case with Alexandre Rodrigues Ferreira's expedition.
Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), from Bahia, graduated from the University of Coimbra at the age of 22, obtaining a doctorate in Natural Philosophy. Later, he went to work at the Royal Museum and Botanical Garden of Ajuda and became a corresponding member of the Royal Academy of Sciences. The naturalist was chosen to lead the Philosophical Journey to South America, an undertaking financed by the State Secretariat of the Navy and Overseas Dominions, under the aegis of Minister and Secretary of State Martinho de Melo e Castro. The expedition lasted from 1783 to 1792 and traveled through the captaincies of Grão-Pará, São José do Rio Negro, and Mato Grosso, departing from the city of Belém and crossing the Amazon and the Pantanal, through the Amazon River basin. In addition to Alexandre Rodrigues Ferreira, the expedition also included the draftsmen José Joaquim Freire and Joaquim José Codina, and the botanical gardener Agostinho Joaquim do Cabo. Once in Brazil, the members of the Philosophical Journey also had the help of numerous indigenous people, mixed-race people, and enslaved and freed Black people. According to Ângela Domingues, Alexandre Rodrigues Ferreira's trip (the only one of four scientists initially planned to depart) had the objectives of "collecting, classifying and preparing natural products with a view to sending them to Lisbon, increasing agriculture and preparing official documents and reports with a view to the geographical, economic, political, demographic and ethnographic portrait of the Amazon".
The Cuiabá region, in Mato Grosso, was first explored by bandeirantes (pioneers) at the end of the 17th century. After the discovery of gold in 1722, a settlement developed that grew rapidly and in 1727 it would be elevated to a town with the name Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.
[1] Maria de Fátima Costa. «Ciência como prática estratégica: a “Viagem Filosófica” ao Pantanal », in Nuevo Mundo Mundos Nuevos [Em linha], “Débats” (2020).
[2] Gisele C. Conceição, Natureza Ilustrada: Processos de construção e de circulação do conhecimento filosófico-natural sobre o Brasil na segunda metade do século XVIII (Porto: CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, 2019), 79.
[3] Gisele C. Conceição, Natureza Ilustrada…, 82. Ângela Domingues, Viagens de exploração geográfica na Amazónia em finais do século XVIII: política, ciência e aventura (Funchal: Centro de Estudos de História do Atlântico, 1991), p. 26.
[4] Maria de Fátima Costa. «Ciência como prática estratégica…».
[5] Ângela Domingues, Viagens de exploração geográfica…, p. 57.
[6] Maria de Fátima Costa. «Ciência como prática estratégica…».
[7] Ângela Domingues, Viagens de exploração geográfica…, p. 58.
Legenda:
Prospecto da Vila do Bom Jesus do Cuiabá in Desenhos de Cidades, Villas, Povoações, Fortalezas e Edificios, Rios e Cachoeiras da Expedição Philisophica do Pará, Rio Negro, Matto Grosso e Cuyabá. Originaes. Volume 2
Alexandre Rodrigues Ferreira, 1783-1792
Desenho colorido sobre papel
320mm x 1240mm
Museu Nacional de História Natural e da Ciência
Universidade de Lisboa, MUHNAC-AHMUL - Fundo Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda, AMB-ARF 33
PROGRAMA ALARGADO
Mais informações brevemente disponíveis.